Sexualidade e liberdade de expressão
Título descritivo atribuído no arquivo. O documento original não inclui um título explícito.
Revista Ler Verão 2018 – Filipa Melo
Novas formas de cerceamento da liberdade de expressão e artística em matéria de sexualidade, novas e cada vez mais finas abordagens de género, legislações restritivas, repressão social da pornografia e do livre arbítrio do comportamento sexual privado, censura de conteúdos programáticos nas escolas e universidades, acusações de assédio sexual sem exigência de ónus da prova... Sofremos os efeitos secundários de mudanças sociais e correções políticas necessárias ou estamos a entrar numa nova era sexualmente restritiva?
Na terceira viagem ao que pensava ser a costa ocidental da Ásia, Cristóvão Colombo, talvez inspirado pela nudez das indígenas, anotou que o mundo não era afinal redondo, mas em forma de mama feminina, com o Paraíso por mamilo situado numa ilha, algures perto da atual Venezuela. Colombo ficou para a história como o descobridor da América e, progressivamente, também como o impulsionador do genocídio, estupro, tortura, comércio e repressão cultural dos povos nativos e o responsável pela primeira epidemia de sífilis de que há notícia na Europa. Se fosse hoje, Walt Whitman seria autorizado a louvá-lo como profeta (“Prayer of Columbus”)? Muito provavelmente, não. Hoje, em cada vez mais cidades norte-americanas, o feriado nacional de 12 de outubro, instituído em 1932 em honra de Colombo, está a mudar de nome para Dia do Povo Indígena. Hoje, em cada vez mais editoras norte-americanas, recorre-se a sensitive readers para a leitura de originais e eventual higienização do texto quanto a eventuais ofensas a determinados grupos de leitores ou eventual revisão e inserção de texto que seja mais conforme com eles. Hoje, pelo menos metaforicamente, o mundo corre o risco de se tornar quadrado.
No final do século XIX, os contemporâneos do autor de Folhas de Erva consideraram a sua poesia ultrajante, pornográfica e imatura e criticaram-na e censuraram-na o mais que puderam. Whitman perdeu o emprego como escriturário público, por “falta de carácter moral”, e viveu grande parte da vida na pobreza, ajudado por uns quantos amigos que reconheciam a grandeza da exuberância emocional e do radicalismo estilístico da sua obra. O próprio Ralph Waldo Emerson, pensador transcendentalista que inspirou e apoiou o auto-intitulado bardo da América, aconselhou-o a expurgar do poema “Filhos de Adão” o manifesto conteúdo homo-erótico.
Curiosamente, nos anos 1990, após décadas de influência patriarcal da obra de Whitman sobre a cultura e os autores norte-americanos, especialmente os da beat generation, a abordagem de género afunilou e ofuscou o seu universalismo. Canto de Mim Mesmo, poema panteísta, celebratório da Natureza e da liberdade, da energia vital, do empenho físico e dos impulsos sexuais crus, do Eu auto-confiante que supera os condicionamentos morais, psicológicos e políticos e acredita na carne e nos apetites, esse disparo místico que fundou a poesia e o sonho libertário americanos continua por cumprir-se.
Os EUA, continente futurante por excelência, “historicamente puritano, mas convulsivamente libertino” (David Friend, The Naughty 90’s), vai hoje à frente de um difuso batalhão de novos moralistas ocidentais que, sob a capa da defesa dos direitos de identidade e da igualdade entre géneros, promove a excessiva intervenção estatal, a burocratização, a catalogação e o policiamento dos comportamentos coletivos e da vida privada em questões sexuais. A seu relativo favor, uma única evidência: é urgente alterar hábitos no sentido da abolição de estereótipos e preconceitos, da garantia de bem-estar e igualdade para todos e da interdição de atos abusivos e ofensivos em relação às mulheres e às minorias. Como afirma Camille Paglia, “os homens têm de perceber que o génio não vai voltar para dentro da lâmpada”. Porém, escudando-se na precedência do sopro sexual libertário dos anos 1960 e nas lutas das mulheres e dos homossexuais nos anos 1970 e 1980 pela prática do sexo natural (sem repressão social) e da sexualidade alternativa, não estará parte da atual leitura das questões identitárias e sexuais a encobrir uma progressiva politização da vida quotidiana, do prazer sexual, das diferenças biológicas fundamentais entre os sexos feminino e masculino e do direito inalienável de cada um sobre o próprio corpo e a sua expressão social, sexual e criativa? Todos os momentos de renegociação da esfera sexual e de correção societal têm os seus excessos. Mas serão todos os excessos admissíveis? Se não, vejamos.
Desde há uma década que a Organização Mundial de Saúde reconhece não existir ainda informação definitiva ou sequer suficiente sobre se os processos envolvidos no chamado “distúrbio do comportamento sexual compulsivo” (CSBD) serão ou não equivalentes aos observados nas adições relativas ao jogo ou ao consumo de substâncias. Ainda assim, a recentíssima nova Classificação Internacional de Doenças classifica oficialmente o comportamento sexual compulsivo como uma doença mental. O manual esclarece que esta compulsão é “caracterizada por um padrão persistente de falha no controle de impulsos sexuais repetitivos e intensos” elevado a um nível de sofrimento e interferência na vida quotidiana clinicamente significativo.
A florescente e muito lucrativa indústria de tratamento de comportamentos aditivos acolheu com certeza com euforia esta notícia, sobretudo nos EUA. Mas a discussão científica permanece inconclusiva, a evidência empírica insuficiente e os clínicos continuam a questionar se uma obsessão por sexo pode ser qualificada como uma compulsão, já que não apresenta sinais indicadores de tolerância e dependência, assinaláveis em atividades como beber ou jogar.
Uma das preocupações mais evidentes foi manifestada por David J. Ley na publicação Psychology Today: “A aplicação apropriada dos critérios de CSBD exigirá que os médicos o diagnostiquem para descartar parafilias — muitos atualmente não o fazem. Infelizmente, muitos indivíduos com pedofilia, exibicionismo ou voyeurismo usam diagnósticos de adição sexual para tentar evitar a responsabilidade criminal. Infelizmente, isso significa também que eles nunca recebem o tratamento de que realmente precisam.” O diagnóstico de comportamento sexual compulsivo sem a definição prévia de critérios incontestados será aplicável à medida que os países membros da OMS forem aprovando o texto da nova classificação. As sérias dúvidas médicas e éticas que levanta são um dos múltiplos sintomas de quão pantanosa pode ser a intromissão institucional nos territórios da auto-identidade sexual.
Em 2014, uma estatística realizada nos EUA pelo serviços de encontros online Match.com (o mais frequentado do mundo, com web sites em 25 países) revelou que 56% dos homens e 48% das mulheres inquiridos fantasiavam que um primeiro encontro com alguém que conhecessem numa dessas plataformas ou aplicações (note-se, escolhido apenas pela aparência) resultaria numa relação amorosa estável. Dois terços dos inquiridos assegurava contentar-se com dois a três actos sexuais por semana (apenas cerca de 10% ambicionavam ter sexo diariamente) e cerca de 30%, a maioria, conhecera o seu atual companheiro online. Desiluda-se, pois, quem supunha que o aparecimento e a adesão aos sites de encontros traduzia uma liberalização da exposição pública do desejo pura e declaradamente sexual e facilitaria a procura de parceiros sexuais com um mínimo de barreiras e constrangimentos. Em última instância, o amor romântico e a valoração estética continuam a ditar as regras.
Troca de parceiros, SDSM, bondage, ass eating (sexo oral anal), hotdogging (masturbação peniana entre nádegas), dogging (prática pública de sexo consentido), stealthing (remoção não consentida do preservativo durante o ato sexual),... Assistimos, nas últimas décadas, a uma explosão de novas e mais radicais práticas sexuais, tal como os media nos vêm anunciando efusivamente? “Não”, diz Janine Mossuz-Lavau, responsável pelas duas maiores investigações sobre as sexualidades em França, editadas em 2000 e 2017.
Em entrevista recente à rádio France Culture, a socióloga declarou-se incapaz de definir o significado da expressão novas práticas sexuais e justificou: “A maioria das coisas que se fazem perdem-se na noite dos tempos. As possibilidades na matéria não são ilimitadas e inovar neste domínio não é assim tão evidente...” A haver novidade, diz respeito a um progressivo aumento do à-vontade dos entrevistados e da sua liberdade de linguagem, proporcionais ao esbatimento de tabus. A história da libertação sexual é a de uma evolução que se perpetua tranquilamente. “Mas, no fundo, e isso não mudou, as pessoas fazem o que bem entendem no cantinho delas.” Só que, agora, com mais recursos tecnológicos e nova nomenclatura à disposição.
Já em 1977, Michel Foucault falava de uma “explosão discursiva” em curso desde que as identidades sexuais e a sua classificação taxonómica e psicopatológica foram inventadas no século XIX. A ideia de perversão sexual foi sendo substituída pela ideia de diversidade sexual, mas todas as categorizações subsequentes foram possibilitadas por relações de poder e dispositivos específicos. Os interditos diminuíram, o nível de tolerância aumentou, contudo o poder exercido sobre a sexualidade pode, paradoxalmente, não ter diminuído.
Por exemplo, há muito que o acrónimo LGBT deixou de ser considerado suficientemente representativo da sexualidade não-heterosexual ou cisgénero (de pessoas que se identificam com o género determinado à nascença). A questão foi mais difundida desde que, em 2014, em resposta às reivindicações dos membros e grupos LGBT, o Facebook incluiu dezenas de novas opções de género através das quais os utilizadores podem auto-definir-se. Na sua variante mais longa, LGBT transformou-se em LGBTQIA+, identificando, por esta ordem, lésbicas, gays, bissexuais, transgénero, queer, intersexuais, assexuais e, por fim, qualquer pessoa cujo género não seja coberto pelas outras sete iniciais.
A invenção-identificação crescente de novos géneros é defendida como útil para que cada um se possa auto-reconhecer, encontrar semelhantes e assim viver melhor com a sua sexualidade e melhor defender os seus direitos. Porém, em termos de militância e activismo, tem vindo a resultar na perda de um âmbito político globalmente abrangente, na pulverização e subsequente divergência de interesses e ações e na diminuição da força reivindicativa. Em termos humanistas, pode bem tratar-se de um retrocesso na conquista de uma maior distinção entre o corpo do homem e o corpo da sociedade e na promoção do poder individual no campo da sexualidade, uma construção até hoje eminentemente social. A criação de pequenos guetos de género, com limites estabelecidos de forma cada vez mais fina, não se assemelhará assustadoramente ao dispositivo da tão abominada dicotomia entre a heterosexualidade reprodutiva e tudo o resto que nela não coubesse?
Nota rápida, meramente empírica: ao contrário do que sucedia na década de 1980 ou até na de 1990, nos bares destinados a determinada comunidade de género é cada vez mais raro encontrar clientes de outros géneros, cuja presença, em muitos casos, passou mesmo a ser hostilizada. É fácil fazer-se a prova.
Numa crítica mais severa, referindo-se sobretudo às cirurgias para mudança de sexo (e à controversa eliminação de exigência de relatórios clínicos prévios e à descida da idade consentida para 16 anos), Camille Paglia acusa a teoria de género de ignorar os contributos científicos da Biologia, da Medicina ou da Antropologia para o entendimento das diferenças sexuais, “considerando-as ficções maleáveis que só dependem da vontade para serem corrigidas”. Do outro lado da barricada, a “despatologização” da transexualidade (recém-removida pela Organização Mundial de Saúde da lista de transtornos mentais) apoia-se em testemunhos de grande sofrimento por parte dos próprios e dos seus familiares e é genericamente apoiada pelos clínicos.
Excluindo o caso da transexualidade e da disforia de género, não deixa contudo de fazer sentido questionarmo-nos se conceptualizar, enquadrar, catalogar, compartimentar, regulamentar em nome da valorização, da redefinição e da proteção da identidade não estará, no fim de contas, a afastar-nos cada vez mais da verdadeira liberdade sexual. E a afastar-nos de um mundo onde idealmente todos os seres humanos poderiam existir como seres sexuais tout court, sem constantentemente terem que explicar ou defender a sua sexualidade, ou o que fazem no seu cantinho, como diria Mossuz-Lavau.
O respeito pelo direito ao acesso à pornografia e à “arte erótica” instituiu-se, com base teórica nas discussões de Ronald Dworkin e Michel Foucault na segunda década do século XX, precisamente na noção de que a autodeterminação de cada indivíduo lhe é intrínseca e estabelece o seu poder de escolha quanto a consumir ou não, no seu âmbito privado, o conteúdo pornográfico que lhe seja licitamente disponibilizado (desde que não envolva menores de idade).
Saltemos no tempo até janeiro último e à demissão forçada de Damian Green, deputado conservador britânico e número dois do Governo de Theresa May, após terem sido encontrados milhares de ficheiros com conteúdos pornográficos num dos seus computadores no Parlamento e na sequência de acusações de assédio sexual por parte de uma escritora e ativista conservadora britânica. A história, com matriz de tabloide ou substituto dos scones do chá das cinco, mas honra de primeiras páginas, pode contar-se assim: Green foi investigado e denunciado em 2008 pelas entidades policiais por consumir “pornografia extrema”(?), não foi indiciado por qualquer crime, mas mentiu sobre o caso até se ver encurralado pelos media e confessar a sua veracidade; Kate Maltby acusou-o num artigo no The Times de, durante um encontro num bar em 2015, após conversarem sobre a carreira política dela e as questões sexuais no Parlamento, lhe ter dito que a sua esposa era “muito compreensiva” e ter “colocado fugazmente a mão sobre o joelho [dela] — um toque tão breve, que quase podia ser contestado” (The Times). Um ano depois, ele ter-lhe-à enviado um sms referindo que a vira numa revista envergando um corpete e que se sentira impelido a propor-lhe um encontro. Maltby declarou ter rejeitado todos os avanços de Green, mas reconheceu que, em 2017, quando ele assumiu o cargo de primeiro secretário de Estado e ministro do Gabinete de May, lhe ligou a congratulá-lo.
Theresa May justificou ao próprio Damian Green, por carta, que o convidava a demitir-se porque o seu comportamento terá ficado aquém dos padrões da administração pública. Recue-se meio século e recorde-se John Profumo, que se demitiu do governo e do parlamento e passou décadas a ajudar os pobres de East End por ter mentido sobre um breve affair com uma modelo de 19 anos. O que mudou, entretanto?
A partir do final do século XIX, as leis e regulações sexuais foram maioritariamente e tacticamente justificadas em nome da proteção dos menores. Em 2014, instrumentalizando-a de novo, o governo britânico habilitou o então-criado Conselho Britânico de Classificação de Filmes (BBFC, orgão regulador e monitorizador, independente e não-governamental) a censurar (cortando cenas ou até bloqueando sites) a inclusão de dez práticas sexuais (ainda que consensuais e entre adultos) em filmes e vídeos pornográficos produzidos no Reino Unido e difundidos online. A saber: não é permitido chicotear ou dar palmadas; bater nas nádegas do parceiro (caning), praticar penetração com “objetos associados a violência”; a urofilia, o facesitting e o fisting; o estrangulamento e os abusos físicos ou verbais de qualquer tipo; o sexo durante o período menstrual e a ejaculação feminina (embora, pelo contrário, seja permitida a ingestão de esperma).
Para Jerry Barnett, fundador do movimento anti-censura Sex and Censorship, as novas regras, “estranhas e arbitrárias”, foram “decididas entre o BBFC, a polícia e o CPS (o equivalente à nossa Procuradoria-Geral da República)” e correspondem a uma luta persistente contra o consumo de pornografia por parte dos cidadãos britânicos. Para Erika Lust, realizadora de filmes eróticos, elas lesam a afirmação e independência sexual até agora alcançadas pelas mulheres que trabalham na indústria pornográfica: “Com esta legislação, o Reino Unido corre o risco de regredir para a época em que o porno se resumia à fantasia masculina, enfadonha e irrealista, de bonecas desejosas de cumprir o seu dever e dar prazer aos homens, quando as mulheres eram submissas e não tinham qualquer poder sobre a sua sexualidade” (The Independent). Sobre este ponto preciso, aconselho que vejam a série televisiva The Deuce, da HBO, sobre o universo brutal da prostituição e da indústria porno nos inícios desta em Nova Iorque, quando as filmagens eram falsas (as bobinas não tinham rolo) e serviam o negócio dos peep shows.
Não existem respostas fáceis para a questão da sexualidade no ambiente profissional (e para nenhuma outra relativa à sexualidade), mas é claro que a atitude bárbara e grosseira de Donald Trump (na gravação “Acess Hollywood”/Grab her by the Pussy), as sequentes marchas de mulheres e a vaga de denúncias de agressão e assédio sexuais masculinos impulsionada pelo #MeToo escancararam a magnitude do problema e de uma secular cultura de impunidade. Todavia, parte deste movimento colidiu com o inalienável direito à presunção de inocência — na colectânea de ensaios The War on Sex (2017, Duke University Press), dirigida pelo historiador e teórico de género David Halperin, revela-se que cerca de cinco mil pessoas estão atualmente presas nos EUA, “indefinidamente”, sob acusações de atos predatórios sexuais violentos, sem sentença ou acusação formada. Por outro lado, reacendeu-se a polémica sobre os eventuais limites de actos sexuais consensuais que cindiu os movimentos feministas na década de 1980. Hoje, o duelo é liderado pela “amazónica” Camille Paglia (pró-sexo, pró-pornografia) e pela dupla puritana Catharine MacKinnon e Andrea Dworkin (defensoras da “consciencialização de género”, da regulação e do construtivismo social).
Contra qualquer proteção especial às mulheres e repugnando publicamente a sua vitimização e infantilização, Paglia defende o investimento no poder que elas mesmas, cada uma por si, podem exercer sobre os homens, aprendendo cada vez mais a defender-se e a educá-los. A amoralidade faz parte da vida instintiva e a relação entre homens e mulheres jamais deixará de ser uma relação de conflito: “A um determinado nível, todo o amor é uma luta, um combate com fantasmas.” Um mundo sem conflito ou risco sexuais, porque controlado pelo Poder (ou, segundo Paglia, por um liberalismo que “define o governo como pai tirano, mas exige que ele se comporte como mãe protectora”), é um mundo desumano. Ainda segundo a ensaísta, “o brutamontes ordinário não é produto do sexismo da sociedade, mas do facto de não estar socializado”. Talvez tenha razão, mas a realidade atual é a de que alguns homens podem até ter mais medo da reação das mulheres, mas grande parte deles ainda se acha no direito de manifestar o seu desejo e frustração sexuais sem controlo ou a mais básica polidez.
Dias antes da conclusão do Mundial de Futebol 2018, a FIFA divulgou a sua avaliação sobre o evento. Tudo correu bastante bem, disse-se, mas o responsável pelas pastas da sustentabilidade e diversidade acentuou que o assédio sexual a adeptas e repórteres femininas permanece preocupante e que pelo menos 30 casos haviam sido reportados. Assim, como campanha proativa de combate ao machismo e a “uma carga sexista desnecessária” no futebol, a FIFA contactou todas as estações de televisão presentes no sentido de, durante os jogos, não filmarem mulheres “que podem ser consideradas atraentes”. Não foi explicada a correlação entre o balanço feito e a medida decorrente e é muitíssimo questionável se não seria mais imperativo garantir a segurança das repórteres sobretudo em situações de direto (já agora em todos os países membros) e assegurar que a Federação Iraniana, presente na FIFA desde 1945, irá de facto acabar com a interdição da presença de mulheres nos seus estádios.
Mas o mais caricato estava para chegar, durante a final entre a França e a Croácia. Antes do jogo, a apresentação da taça em ouro 18 quilates no relvado foi feita por um senhor engravatado e... uma loiríssima e escultural modelo russa, que acenou majestaticamente às multidões com bastante maior ênfase, sentido de pose e planos fechados do que ele. Após o jogo, aquando da entrega das medalhas e taça e da queda de uma valentíssima bátega de água, os chapéus cobriram de imediato o senhor Putin e o senhor Macron, e a senhora Kolinda Grabar-Kitarović, presidente da perdedora Croácia, foi deixada à chuva, saltando, sorrindo e abraçando o presidente francês, com grande desportivismo e... o cabelo e a camisola da sua selecção completamente encharcados.
Kolinda Grabar-Kitarović, por sinal, pode ser considerada muito atraente, é católica, casada e mãe de dois adolescentes, afirmou publicamente que os apoiaria caso eventualmente se assumissem como homossexuais e manifesta-se pró-IVG e uso medicinal de canábis. A presidente-adepta provou na perfeição que “o futebol não é só compatível com um feminismo esclarecido, como constitui também uma das melhores ferramentas pedagógicas para mostrar às mulheres como agir num ‘ambiente hostil’ — que as atuais disposições sobre assédio sexual, centrando-se apenas nas consequências após os factos ocorridos, pretendem controlar através da aplicação de duras medidas punitivas” (Paglia).
Em janeiro deste ano, a ONU anunciou a intenção de propor a sanção dos anime, mangá e videojogos japoneses que incitem à violência contra as mulheres. Contra-argumentando de imediato, Kumiko Yamada, representante do Instituto da Mulher e da Cultura japonês respondeu com clareza à pretensão da ONU. Para ela, “a chamada violência sexual na mangá e nos vídeojogos é uma coisa inventada e, como tal, não ameaça os direitos das pessoas reais; portanto, não faz qualquer sentido bani-la em nome da proteção dos direitos das mulheres”. Por outro lado: “No Japão, e especialmente no caso da mangá, estes são campos criativos que as próprias mulheres cultivaram e nos quais trabalharam arduamente para construírem pelas suas próprias mãos carreiras para si mesmas. Se fôssemos ‘proibir a venda de mangás que incluem violência sexual’, isso faria o oposto e criaria um novo caminho para o sexismo em relação às mulheres.”
Tal como muitas outras medidas de policiamento cultural e pedagógico tentadas ou recém-adotadas em múltiplos contextos e países ocidentais, a ideia subjacente à intenção da ONU é a de que a representação artística banaliza certos comportamentos, especialmente os relativos à sexualidade. O argumento tem sido aproveitado por todos os ativistas da censura de tudo o que na ficção e na representação artística possa chocar ou ser moralmente repreensível. Alastra hoje pelas escolas e universidades, como pelas editoras.
Ao mesmo tempo que, nos EUA, se impôs recentemente o recurso a “leitores de sensibilidade” como prática generalizada pelo menos para a edição de livros infanto-juvenis, floresceu um mercado de apoio de “leitores de sensibilidade” a autores de enquadramentos marginalizados no sentido de verem as suas obras editadas. A editora Penguin criou mesmo um programa de formação (WriteNow) que anualmente recruta, forma e posteriormente edita 12 escritores de comunidades sub-representadas no Reino Unido, sob o argumento de que estes têm “uma enorme dificuldade em serem publicados”.
Leia-se, a propósito, o comentário da escritora norte-americana Joyce Carol Oates no Twitter à novas edições de Huckleberry Finn e Moby Dick em versão expurgada: “Alguns de nós ainda nos lembramos da velha Legião Católica da Decência, que avaliava todos os filmes com severa e censora retidão. Um simples ‘damn’ ou uma leve insinuação — um flash de pele nua — poderia resultar em CONDENAÇÃO.” Quanto à polémica sobre as acusações póstumas de misoginia extrema a Philip Roth, comparem-se o artigo da romancista norte-americana Dara Horn no The New York Times (25/05/2018) e uma entrevista dada pela escritora nigeriana Chimamanda Ngozie Adichie à revista Vulture (09/07/2018).
Em 2008, a British Sociological Association produziu uma lista de palavras e expressões a banir pelos editores e pelas universidades britânicos, dada a sua potencial carga ofensiva e discriminatória. Velhos Mestres, por exemplo, deverá ser substituída por Artistas Clássicos e as palavras “seminal”, “paciente” ou “idosos” deverão pura e simplesmente deixar de existir. Em fevereiro de 2018, a revista da Federação do Ensino CCOO de Madrid publicou um artigo assinado pela artista, investigadora e educadora Yera Moreno e a académica Melanni Penna, onde as duas propuseram um “Breve decálogo de ideias para uma escola feminista”. Limitar-me-ei a transcrever ipsis verbis alguns dos 19 pontos propostos: treino dos professores em centros de feminismo; incluir, pelo menos, o mesmo número de livros escritos por mulheres do que por homens no currículo de Língua e Literatura e incluir, pelo menos, o mesmo número de mulheres filósofas que filósofos homens na História da Filosofia, porque a quantidade é importante; eliminar livros escritos por autores sexistas e misóginos entre as possíveis leituras obrigatórias para os alunos — exemplos de livros e/ou autores sexistas para eliminar das agendas: Pablo Neruda (Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada), Arturo Pérez Reverte e Javier Marías (qualquer dos seus livros)]; não separar as casas de banho e balneários entre homens e mulheres; proibir o futebol nos pátios — vamos fazer do pátio um espaço amigável, onde todos possam ocupar, transitar e habitar esse espaço comum, vamos deixar de fora os jogos competitivos que monopolizam espaços e excluem aqueles que não participam deles, porquê campos de futebol e não pistas de dança?; proibir músicas machistas na banda musical do [CCOO]. Como a misoginia, o sexismo e a homofobia são insultos, eles não devem ter presença nos nossos centros. Fim de citação.
A confusão entre a linguagem/representação e a realidade e o monopólio do discurso pelas ciências sociais promovem hoje no campo das questões de identidade de género e sexualidade o recrudescimento de formações ideológicas restritivistas e dogmáticas. Roland Barthes reuniu em tempos sob o nome de arrogância “todos os gestos (de fala) que constituam discursos de intimidação, submissão, dominação, asserção ou soberba: que se colocam sob a autoridade, a segurança de um dogma ou uma cruzada que não pensa, não concebe o desejo do outro”. Prosaicamente, no debate sobre a sexualidade privada e a vida pública, ainda há quem entenda que só porque não gosta de algo tal não significa que esse algo seja repulsivo ou passível de contrangimento ou interdição. Mas, reflicta-se, o desejável não será cada indivíduo descobrir a sexualidade polimorfa na infância e construí-la, geri-la e vivê-la como bem entende como adulto, desde que tal não lese os direitos fundamentais dos outros indivíduos (não, não subscrevo nem apoio as teorias de Robert Nozick)? No limite, já que de margens e extremos estamos a falar, não será legítimo perguntar para quando o milagre de sermos sexualmente só mesmo nós mesmos, “natureza sem obstáculos com a sua energia original”, “corpo eléctrico” como o cantou Whitman?