Porque pecamos, senhores?
Porque pecamos, senhores?
Podem as neurociências explicar por que escolhemos fazer o que não devemos fazer? Cada vez mais, mas os pecados revelaram-se, ao longo dos tempos, tão imortais como as necessidades de sobrevivência, poder ou crença, o problema do mal ou as fantasias humanas de liberdade e felicidade. Se podemos passar sem eles? Talvez não, mas moderá-los através da autodisciplina reformula-se como uma opção individual, não casuística ou redentora, mas de contenção em prol do coletivo.
Tal como as girafas desenvolveram pescoços maiores para chegarem com os lábios flexíveis até aos ramos mais altos e apetecíveis, nós, Homo sapiens, também colhemos de “um feliz emaranhado de ADN incorretamente copiado” os proveitos do aumento do cérebro e das capacidades racionais. Contudo, a neuroplasticidade não possibilitou ao cérebro humano distinguir mais do que sete informações em simultâneo, o que o Papa Gregório I, o Grande, parece ter intuído quando estabeleceu em sete o número de pecados mortais, redefinindo o que o escravo gago, o hebreu Moisés, estabelecera em número de dez mandamentos, após escutar a voz vinda do arbusto em chamas no meio das trevas.
Jack Lewis defendeu mais uma vez esta tese relativa à definição gregoriana de uma versão memorizável dos sete pecados mortais, em outubro último, durante uma sessão do FIC.A.-Festival Internacional de Ciência, em Oeiras. Em foco, A Ciência do Pecado (ed. Saída de Emergência), apresentado por este neurobiólogo e divulgador científico inglês (investigador no Max Planck Institute for Biological Cybernetics, autor do podcast His Geek Chic Weird Science e do blogue Sort Your Brain) como um manual de descodificação do “septeto pecaminoso”, de acordo com as mais recentes conquistas da investigação neurocientífica.
No essencial, o ensaio de Lewis mapeia as partes do cérebro envolvidas em atividades conotadas com a tentação. Dedicando-se também, em jeito de guia de auto-ajuda, à sugestão de estratégias para contrariarmos a tendência natural para as facetas mais negativas de cada pecado, sinaliza, contudo, uma reflexão válida. A divulgação alargada das conquistas da neurociência e, sobretudo, da neurobiologia, poderão proporcionar uma significativa revolução empírica. Lewis prenuncia-a. Defende a contenção voluntária das pulsões para o pecado como forma privilegiada de gerir o conflito interior e o sofrimento emocional e de controlar os comportamentos antissociais. Tudo isto, num cenário pós-religioso, em busca da construção de comunidades perfeitamente integradas e “da sensação de que pertencemos onde realmente estamos”. O sociólogo alemão Norbert Elias correlacionou os processos de formação dos indivíduos e o de formação das estruturas sociais. Lewis, na mesma linha, acrescenta o contributo das neurociências para a esperança na possibilidade de internalização e constrangimento das pulsões e emoções por parte de cada um.
Podemos começar pelo fim e especular que a luta contra pecados e tentações várias só pode saldar-se em tragédia. Estes derivam de circunstâncias inevitáveis e incontroláveis que surgem ao longo da existência de cada um, provas do destino para as quais não existem nem soluções fáceis nem finais simples e felizes. O que aprendemos emerge, sobretudo, da própria vida, que escapa ao guião da ciência. Vale-nos o caráter, a possibilidade de escolha, ou nem isso, porque estamos presos a uma sucessão de carências e desejos imperfeitos. Como apontou Locke, no Ensaio Sobre o Entendimento Humano: “Nós raramente estamos bem, e suficientemente livres da solicitação dos nossos desejos naturais ou adotados, mas uma sucessão contínua de mal-estares desse género, que as necessidades naturais ou os hábitos adquiridos acumularam, toma a vontade alternadamente; e assim que uma ação é despachada, que por essa determinação da vontade somos levados, logo outro mal-estar se prepara para nos pôr a agir.» O que nos incomoda leva-nos a pecar.
Mas, se no Ocidente, a abundância e o refinamento da regulação da vida em sociedade nos libertam dos maiores incómodos e a ciência nos possibilita um inigualável nível de autoconhecimento, por que motivo subsistem a ideia e a prática do pecado? Comecemos pelo princípio que é onde fermentam as causas de todas as histórias, todas parecidas, mas boas e más cada uma à sua maneira.
No início, a vida humana era a melhor, não fora ter apetecido a Eva a fruta errada. Por condenação divina, nasceu assim o sofrimento, consanguíneo do pecado original. Para os cristãos, surgiram como respostas Jesus, a salvação messiânica e a esperança numa vida eterna. Estabelecidos o Bem e o Mal em conflito eterno, a culpa, a confissão e o castigo seriam as únicas vias de redenção.
Soberba, Inveja, Ira, Preguiça, Avareza, Gula e Luxúria, os penitentes alinhados em sete círculos na subida do Monte Purgatório, cada um carregando às costas a história singular e única do seu vício desviante. No topo, atravessadas as chamas, já senhor de si e de “vontade livre, reta e boa”, Dante despede-se de Virgílio e reencontra Beatriz. Não pode haver final mais feliz, o poeta regressa a casa, que é como quem diz: abre os olhos e encontra Deus. Inspirado por Aristóteles e Santo Agostinho, Dante não se afasta da conceção medieval de pecado, mas apõe-lhe a defesa do caminho contemplativo rumo à salvação.
Em O Mal no Pensamento Moderno, “história alternativa da filosofia” centrada no problema da inteligibilidade do mal, Susan Neiman escolhe antes o caso da condenação geral de Afonso X, rei de Castela no séc. XIII, para ilustrar a visão maniqueísta que prevalece até ao iluminismo. Afonso não só repudiou a mulher, julgando-a estéril, como concluiu, após anos de estudo junto de astrónomos judeus: “Se eu tivesse sido conselheiro de Deus no momento da Criação, muitas coisas estariam mais bem ordenadas.” A blasfémia do rei e sequente castigo (acabou por morrer, em guerra contra um dos filhos, que lhe cobiçou e o sucedeu no trono) foi história exemplar de justiça divina contada às criancinhas durante séculos.
Neiman coloca a defesa de Afonso na base das teorias do fundador do racionalismo setecentista, Pierre Bayle: da sustentação da incompreensibilidade de todas as coisas à refutação do consentimento universal sobre a existência de um deus. Segundo o filósofo huguenote francês, o caso do rei espanhol seria prova suficiente de que a religião jamais serviu de freio ao apelo dos pecados. “A inclinação a fazer o mal não se encontra mais em uma alma destituída do conhecimento de Deus do que em uma alma que conhece Deus.” A conduta humana seria antes guiada pelas paixões, pelo temperamento e pelo hábito, que falam mais alto do que os princípios ou a presença ou ausência de crenças teológicas.
Bayle opôs a experiência à autoridade e separou a fé da moralidade. Leibniz procurou responder-lhe, dando um passo atrás, conjugando ciência e doutrina na explicação da essência das coisas (para salvar as honras de um deus-mónada-superior, que ordena o mundo no sentido da melhor forma possível) e estabelecendo a divisão entre três tipos de mal: metafísico (“degeneração inerente aos limites da(s) substância(s) de que o mundo é feito”), natural (“a dor e o sofrimento que sentimos nele”) e moral (“o crime pelo qual o mal natural é a punição inevitável”). Será preciso acontecer 1755, em Lisboa, para que, segundo Neiman, se abra por fim caminho às conceções modernas de mal, “desenvolvidas para deixar de culpar Deus pelo estado do mundo e para tomarmos nós mesmos essa responsabilidade”.
Rousseau inicia esta revolução, ao estabelecer o Terramoto de Lisboa como acidente de origem natural e significado neutro. A terra tremeu e o mar galgou as colinas, mas, “se os habitantes de tão grande cidade se tivessem dispersado e construído casas mais pequenas, menor destruição teria ocorrido” (carta a Voltaire, que, por sua vez, em correspondência privada, descreveu o terramoto como “um pontapé no traseiro da Providência”). O sofrimento humano resultou de incúria, não de castigo ou sinal divino. Logo, o mal é erro e obra nossa. Para lutar contra ele, a nada mais podemos recorrer para além do conhecimento: “uma vez que o alcancemos, somos livres de reparar os danos em qualquer momento” (Neiman).
Em Emílio ou Da Educação, que define como “a melhor e mais importante de todas as [suas] obras”, Rousseau romanceia a vida de Emílio, do nascimento até ao casamento, e extrema as suas convicções, ainda hoje paradoxais. O ser humano deve procurar o regresso a um estado natural, o mais próximo possível da Criação original e da Providência, preterindo os objetos intelectuais em favor dos objetos sensíveis, e colocando, por fim, a experiência empírica ao serviço da formação social. “O desenvolvimento interno das nossas faculdades e dos nossos órgãos é a educação da natureza; o uso que nos ensinam a fazer desse desenvolvimento é a educação dos homens; e o ganho da nossa própria experiência sobre os objetos que nos afetam é a educação das coisas.” Ou, como resume Neiman: “Devemos preocupar-nos com os males pelos quais somos responsáveis e Deus tomará conta do resto. A primeira parte da mensagem é moderna, Rousseau tornou-a ainda mais moderna ao aumentar o número de males pelos quais somos responsáveis. Ao fazê-lo, preocuparia os deístas tradicionais. Como a sua criação é tão perfeita, o Criador está sujeito a tornar-se supérfluo. Deus é benevolente, mas não precisamos d’Ele. Aqui, Rousseau esteve perto de Newton. Ambos queriam mostrar a grandeza de Deus ao mostrar a perfeição da sua ordem. Ambos acabaram por descrever uma ordem tão impecável que quase podia funcionar sozinha.»
Jack Lewis é ateu confesso. Após pesquisar e apresentar as causas neurológicas para os sete pecados tidos como mortais, não hesita em afirmar que, se estes tivessem sido abolidos, é bastante possível que a nossa espécie nunca tivesse sobrevivido. Paradoxalmente, define-os como “forças socialmente destrutivas”, quando levados ao extremo, na era ocidental da abundância e do bem-estar social. O que nos impele hoje para comportamentos egoístas e antissociais, diz, é um excesso de dor social. E aponta: “O seu desejo de receber elogios dos outros, de namoriscar vergonhosamente com um desconhecido, não se importar por não fazer a sua parte, tomar mais do que justamente lhe compete, provocar a queda de um rival, atafulhar-se em comida quase até rebentar ou responder violentamente a uma provocação menor, podem ser simplesmente tentativas de acalmar o sofrimento da sua agitação interior.”
Paleio de confessionário? Claro que sim, e por demais evidente e irritantemente insistente: “O mundo secular deve encontrar métodos eficazes para incentivar todos os comportamentos que a religião descobriu que funcionam como antídotos às influências venenosas da dor social, mas sem se apoiar nos mitos do Céu e do Inferno.” E, no entanto, as neurociências satisfazem, cada vez mais, o impulso para descodificarmos os mecanismos biológicos subjacentes à dor e ao prazer, “as alavancas de que o organismo necessita para que as estratégias instintivas e adquiridas atuem em eficácia” (hipótese dos marcadores somáticos, António Damásio). Caminho aberto para ilustrarmos valores, matéria-prima da moral, cartografando a dependência mútua entre razão e emoção em nós mesmos, e, por fim, estarmos aptos a decidir em consciência num espaço pessoal e social. No limite, como propõe David Eagleman (O Cérebro: à descoberta de quem somos, Lua de Papel), o conhecimento neurocientífico tornará inevitável uma revisão do próprio sistema legal, nomeadamente quanto às noções de culpa e imputabilidade. Se o pecado é, neurologicamente, inato em nós, estamos bem mais desculpados por o praticarmos, certo?
Em A Ciência do Pecado, Jack Lewis revê, passo a passo, capítulo a capítulo, os circuitos neurológicos na origem dos sete pecados. Em destaque, como “quartel-general” das tentações: o córtex cingulado anterior dorsal (dACC), enigmática estrutura cerebral que possui conexões anatómicas com outras estruturas situadas no córtex pré-frontal e estruturas pré-motoras, bem como com a amígdala, e conexões diretas com a espinal medula e com o hipotálamo. Estudado através de diversos métodos experimentais, o dACC é cada vez mais implicado na compreensão das atividades de aprendizagem, ajuste ou auto-controlo, isto é, na deteção e avaliação de processos sociais e na ativação da dor social. A compreensão da atividade nele gerada ilumina hoje, de forma inédita, especialmente as situações em que o resultado da interação social fica aquém das expetativas do sujeito, isto é, os mecanismos subjacentes à exacerbação do narcisismo, expressão máxima do orgulho, rei de todos os pecados segundo o Papa Gregório.
A sensação de superioridade evidente perante os demais e de que se tem direito a tudo é mensurável, em níveis relativos entre a população em geral, desde que Raskin e Hall criaram, em 1979, o Teste de Personalidade Narcisista (NPI – versão online gratuita disponível em openpsychometrics.org/tests/NPI). No campo clínico, o Manual de Diagnóstico e Estatísticas das Perturbações Mentais contrapôs a definição do Transtorno de Personalidade Narcisística (TPN), o pior quebra-cabeças dos profissionais de saúde mental, vulgo em linguagem comum a afirmação de que existe cura para todos, menos para os grandes narcísicos.
Lewis esclarece que os estudos recentes conduzidos pela imagiologia por ressonância magnética funcional (IRMf, imagens ao vivo do cérebro em funcionamento enquanto o sujeito desempenha uma tarefa específica) apontam para a existência de caraterísticas distintivas no funcionamento cerebral das pessoas diagnosticadas com TPN. Possuem a AI esquerda (ínsula anterior) mais pequena e um volume menor de matéria cinzenta na parte do córtex pré-frontal medial (mPFC), o que se reflete em “dificuldades em suprimir sentimentos desagradáveis que resultam da não receção da admiração tão desejada” e em “dificuldades profundas em sentir o que os outros sentem [destaque para as investigação de Jason Mitchell sobre empatia e preconceito com recurso à IRMf]”. Suspeita-se que estas alterações provenham de interferências no desenvolvimento do cérebro provocadas por determinados estilos de educação parental, nomeadamente por pais e educadores negligentes ou hiper-protetores, os suspeitos do costume da pandemia narcísica em curso no Ocidente.
Em Fisiologia do Gosto (1825), Brillat-Savarin assinalou que “o prazer de comer exige que se tenha fome ou, pelo menos, apetite; o prazer da mesa é muitas vezes independente de ambos”. Diz-me o que comes e dir-te-ei quem és, vaticinou este advogado francês. Todavia não poderei julgar-te, acrescentou Roland Barthes, em prefácio à obra (ed. Relógio d’Água). Toda a fruição gustativa resulta da oposição de dois valores, o agradável e o desagradável, e estes valores são totalmente tautológicos: é agradável o que agrada e desagradável o que desagrada. Quando muito poderia julgar a natureza do que ingeres, ou nem isso: será mais bárbaro “dilacerar e torturar um corpo ainda capaz de sensação […] do que assá-lo e comê-lo depois da sua morte”, alertou Montaigne (“Sobre os Canibais”). Resta-me julgar a quantidade do que ingeres, tomando por prova desde logo irrefutável o perímetro da tua barriga, visível por mais que a encolhas.
Segundo a Organização Mundial de Saúde, um terço da população mundial sofre de excesso de peso ou obesidade. A gula anda à solta, desvairada, pelas partes mais prósperas do mundo, cujo aumento de IMC (Índice de Massa Corporal) se tornou, também ele, pandémico. Apesar de já não necessitarmos de acumular reservas preventivas para períodos de carestia, como o fizeram os nossos antepassados, subsistem na nossa neuroquímica mecanismos que nos encorajam a comer demais.
A culpa, esclarece Jack Lewis, é da grelina, um mensageiro químico segregado pelo estômago e transportado pela corrente sanguínea de forma demasiado lenta até ao hipotálamo, o “quartel-general de hormonas no cérebro”. Decorrem 20 a 30 minutos entre o início da ingestão da comida e a substituição da sensação de fome pela sensação de saciedade. Para agravar o cenário, várias investigações através de RM comprovam que a nossa tendência pantagruélica é alimentada por respostas muito mais fortes e intensas do núcleo accumbens (centro vital de respostas no interior do estriado ventral do cérebro) a alimentos com maiores concentrações de gorduras e hidratos de carbono. A tentação é potenciada também pela diminuição dos níveis de açúcar no sangue ao longo do dia, o stresse elevado, o sono insuficiente e, até, a propensão para o tédio. Da próxima vez que lhe apetecer um bolo em vez de uma maçã, tenha em conta a força da sua panela neural e não se desculpe com a sopa de pedra.
Se cometeu ou pondera cometer adultério, saiba que os mecanismos neuronais potenciadores dessa escolha são gémeos xifópagos da gula (no tal núcleo accumbens) e dependem do neurotransmissor dopamina e das hormonas oxitocina e vasopressina. A luxúria, tal como a cataloga Lewis, traduz-se em comportamentos sexuais antissociais causadores de danos: é “uma força que afasta as pessoas em vez de as aproximar”. Cabem nesta categoria, mais do que o adultério (moral e socialmente condenado até há bem pouco tempo), a dependência sexual (Comportamento Sexual Compulsivo, CSB), o vício da pornografia e a pedofilia. Em 2008, Bento XVI colocou esta última à cabeça de seis novos pecados adicionados pela Santa Sé à lista gregoriana: os restantes são o aborto, a manipulaçao genética, o tráfico de droga, a riqueza demesurada e a poluição ambiental. Nesse mesmo ano, o psicólogo e sexólogo canadiano James Cantor identificou diferenças substanciais nas áreas de matéria branca dos cérebros de pedófilos quando comparados com os cérebros de controlo de não pedófilos. Reforçou esta descoberta, em 2016, com diferenças existentes nas conetividades funcionais cerebrais, identificáveis através de ressonâncias magnéticas. As conclusões de Cantor e as investigações no campo das hormonas do amor coincidem em que a excitação sexual deriva de impulsos fora do controlo racional, qualquer que seja a orientação sexual em questão, ainda que a decisão de agir segundo esses impulsos, essa sim, possa ser controlada.
Quanto à preguiça, identificada por Jack Lewis com a apatia, saiba que a sua base cerebral reside no corpo estriado (ventral e dorsal) deste órgão, “o epicentro da capacidade da pessoa em ser proativa”. Lesões (devido a impactos ou acidentes vasculares cerebrais) ou, hipótese mais controversa, uma inatividade prolongada nesta rede cerebral extremamente complexa provoca uma redução significativa dos níveis de motivação ou da capacidade de decisão, por défices emocionais-afetivos ou cognitivos. Raiz da motivação ou desmotivação, o estriado pode ser, segundo o autor de A Ciência do Pecado, o melhor alvo para as intervenções terapêuticas.
Para um melhor entendimento da avareza, “desejo desmedido por mais”, junta-se ao registo da atividade no estriado ventral o da atividade no córtex orbitofrontal medial (OFC), cujos índices de ativação em resposta à noção de dinheiro estão na base da neuroeconomia. Estes correspondem a um treino das estruturas cerebrais no sentido da busca de recompensas secundárias, posterior à melhoria das probabilidades de sobrevivência dos nossos antepassados, isto é, muito para além da satisfação das necessidades primárias, como a comida e a bebida. Para os combatermos, esclarece Lewis, depositamos esperanças na Teoria da Mente (ToM), “a maturação de um conjunto de fibras de matéria branca, chamado fascículo arqueado” que ocorre por volta dos três e os quatro anos de idade e que, quando a funcionar de forma adequada, nos ajuda “a assegurar que o impulso para maximizar os nossos ganhos egoístas não coloca os relacionamentos sociais em risco”. No seu melhor, a ToM ajuda-nos a sermos menos avarentos. No pior, ensina-nos a mentir, a esconder proveitos próprios e a simular generosidade. Se quiser fazer a prova do que está implicado nestas noções, investigue ferramentas da economia comportamental como os jogos do Ultimato, do Ditador e dos Bens Públicos ou o Dilema do Prisioneiro.
Eis, entretanto, a inveja, que, como diz Jack Lewis, olha sempre para cima, com gula pela posição de quem parece estar mais bem posicionado. A inveja é relativa, pois, acionada “por qualquer disparidade pressentida que nos deixe com a sensação de que ficamos a perder”. Prima do ciúme, deforma-nos ao espelho. A sua tradução cerebral, no dACC e no estriado ventral, é conhecida desde a divulgação, em 2009, dos estudos levados a cabo pelo neurocientista japonês Hidehiko Takahashi. Mas Kant definiu muito antes o impulso que dela resulta: damos por nós “determinados a destruir a felicidade dos outros”. O que nos conduz, direitinhos, para o covil do último pecado mortal, a ira, onde se esconde Satanás, pronto a pontapear-nos para a ação.
Se somos incapazes de nos colocarmos nos sapatos de outrem, nos entregamos nas mãos da líbido, nos empanturramos de comida quase até rebentar, não nos importamos por não fazermos a nossa parte, tomamos mais do que justamente nos compete ou nos deixamos guiar pelo “monstro de olhos verdes” (Shakespeare), o mais certo é acabarmos por comprometer o bem-estar de alguém. O desejo de fazer mal aos outros talvez seja a conclusão inevitável de qualquer prática individual pecaminosa. Extremado, toma o nome de sociopatia.
A ira até pode resultar do comprometimento de certos subcompartimentos da amígdala, da hiperatividade no córtex cingulado anterior ou de um volume de tecido reduzido em diversas regiões do córtex orbitofrontal (OFC), tal como o esclarece a neurociência. Contudo, a evidência precede a ciência. O mal nasce connosco. Aprendemos toda a vida a praticá-lo ou a combatê-lo. A psicopatia é inata, a sociopatia adquirida.
Olhos que escorrem sangue, asas de morcego e tranças de serpente, as fúrias contorcem-se nos subterrâneos da mente desde que o mundo é mundo. Segundo os greco-romanos, personificam a vingança e a punição sobre os mortais. Rejeitadas e temidas pelos próprios deuses, as fúrias vivem à margem do Olimpo e nem Zeus manda nelas. Toldam-nos os olhos, e chicoteiam-nos. Só Atena, deusa da sabedoria, é capaz de as demover. E sussurra, ao nosso ouvido: conhece-te a ti mesmo…
Refletindo sobre o mal, Susan Neiman disse-o de outra forma. Não temos outra alternativa senão tentar compreender. “A crença de que o mundo devia ser racional é a base de todas as tentativas de o tornar racional. […] A tentativa de levar a razão e a realidade ao encontro uma da outra é a fonte de todo o progresso, que se dá ao uni-las. Sem esta ambição, nunca nos sentiríamos indignados — nem assumiríamos a responsabilidade pelas mudanças, por vezes influenciadas por essa indignação.”
Jack Lewis, como vimos, enaltece o valor do conhecimento dos mecanismos neurais subjacentes à avaliação das escolhas. Quanto mais sabemos da razão natural, bio neurológica, do porquê de pecarmos, mais desculpas temos para o fazermos. Ou será o contrário? Somos, talvez, cada vez mais livres para escolhermos um outro rumo. Sabendo o que somos, decidimos como seremos. O que ninguém conseguiu (ainda?) tirar de nós é o impulso para falhar e pecar. E, por isso, as histórias permanecem todas parecidas, mas boas e más cada uma à sua maneira. Tudo permanece igual, e o sol gira, lá no alto.