Estão a dar cabo dos maus?
Estão a dar cabo dos maus?
Vítimas das novas pedagogias, do woke, da autoficção ou somente da indiferença ou preguiça dos escritores, a população de grandes vilões literários está a diminuir drasticamente, registando-se cada vez menos nascimentos e uma degradação progressiva da atenção aos exemplares históricos. Talvez fosse útil criar um Movimento de Proteção Pró-Vilões e divulgar os métodos tradicionais de criação destes seres extraordinários. Antes que o Lobo Mau se transforme em Cordeirinho e os Porquinhos jamais aprendam a fazer casas seguras. Ou Satanás troque os cornos por asas.
Texto de Filipa Melo
Ilustrações de Pedro Vieira
Faça por si mesmo a experiência: visite uma livraria e procure um livro atual dirigido a leitores entre os quatro e os sete anos de idade que contenha um vilão. Não peça menos do que um exemplar a sério, ardiloso, inclemente e desalmado, herdeiro decente e memorável da Rainha Má, do Lobo Mau, de Gargamel, de Cruella de Vil, do Capitão Gancho ou do Barba Azul (arquétipo do serial killer). É muito provável que não encontre nem rasto. Salvo raríssimas exceções (supondo que existam, algures), estes representantes muito honrados do Mal sucumbiram à corrente pedagógica que, nas últimas décadas, instaurou o dever de expor as crianças só ao lado belo da vida e dos humanos, de nunca as traumatizar e de nelas asfixiar o medo.
Apesar do incontestável papel dos vilões no entrelaçamento do enredo e na evolução da jornada do herói, até a Disney os trocou pelo acentuar das contradições internas dos protagonistas. Com a quase extinção destas figuras concretas a serem derrotadas, evaporou-se também o efeito do conto de fadas: a apresentação concisa e direta de dilemas existenciais através da polarização, sem meios-termos, entre os bons e os maus. Tal permitia «à criança compreender facilmente a diferença entre os dois polos, o que ela não poderia fazer facilmente se os protagonistas fossem desenhados mais próximos da realidade, com todas as complexidades que caracterizam as pessoas reais» (Bruno Bettelheim, Psicanálise dos Contos de Fadas). Pelo caminho, é também uma forma privilegiada de contacto da criança com o inconsciente e a imaginação que se perde: imaginar-se só boazinha e descobrir-se também naturalmente má, com desejos de transgressão, ser-lhe-á com certeza bem mais penoso.
A propósito, Joyce Carol Oates (em A Fé de Um Escritor) salienta como a literatura infantil, sobretudo no passado, não recuava diante dos retratos de crueldade e destaca o criador de Alice no País das Maravilhas. «Lewis Carroll, em quem o eu infantil não esmoreceu ao longo de toda a vida de celibatário, compreendeu instintivamente a propensão nervosa da criança para se rir das mesmíssimas coisas que provocavam ansiedade: injustiça, morte abrupta, desaparecimento, ser devorado. [...] Carroll tem ao mesmo tempo o efeito de excitar a ansiedade infantil (o que será que aquelas palavras aterradoras significam?) e aplacá-la.» Acrescente-se o caso análogo, mas ainda mais radical, da Condessa de Ségur e das desventuras de Sofia, um clássico da escola da crueldade, pleno de descrições das mais diversas formas de provocar sofrimento (em criaturas inocentes), versão infantil da violência em Sade. Quem aconselha a sua leitura ainda hoje?
O panorama dos vilões na ficção para adultos também não é muito auspicioso. Em Portugal não é de estranhar que assim seja, já que nunca por cá tiveram tradição literária (os exemplos são escassos, entre eles: António de Faria, Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto; Cónego Justino, Eusébio Macário e A Corja, e Baltasar Coutinho, Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco; Teodorico Raposo, A Relíquia, e Juliana e Basílio, O Primo Basílio, de Eça de Queirós; Everardo, «O punhal de Rosaura», de Álvaro do Carvalhal; Jaime Franco, Jogo da Cabra Cega, de José Régio; Luís Dantas Castro, A Balada da Praia dos Cães, de José Cardoso Pires). Estão por estudar as causas e os efeitos desta queda dos vilões quanto à representação literária do poder e da autoridade, das relações de força e dinâmicas sociais. Será possível atingi-la somente através da suposta complexificação dos protagonistas, dos seus mundos internos e pontos de vista (autoficção incluída)? Por via das dúvidas, nada como acautelar, pelo menos junto dos adultos e dos candidatos a escritores, a preservação de alguns dos maus em reserva natural e a divulgação da oficina onde este tipo de personagem pode ser criado.
Importa, antes de mais, defini-lo. Um vilão é uma personagem que condensa em si mesma uma ilustração do mal: pratica atos reprováveis e maléficos em proveito próprio, impulsionada por ambição ou desejo de vingança. Tão importante e carismática quanto o herói, contraria os seus esforços, ameaça os seus propósitos e força-o a agir, assim favorecendo a revelação dinâmica das suas qualidades e defeitos e o seu amadurecimento. Apesar de partilhar com a personagem antagonista esta função central de oposição ao protagonista, o vilão possui obrigatoriamente más intenções (exemplo: Lorde Voldemort, Harry Potter, J.K. Rowling). Mesmo que o seu modo de agir corresponda a princípios ou justificações pessoais plausíveis (exemplo: épicos e tragédias; Medeia), os efeitos sobre o protagonista e/ou restantes personagens são sempre negativos. Acima de tudo, o vilão funciona como um conspirador, um intriguista, no sentido em que proporciona intriga, gera conflito, faz a narrativa avançar, torna mais significativas as ações à sua volta e aguça a atenção do leitor.
Por vezes, o vilão encaixa no arquétipo do anti-herói (Heathcliff, O Monte dos Vendavais, de Emily Brontë) ou no do assassino (Conde Drácula, Drácula, de Bram Stoker; Patrick Bateman, American Psycho, de Bret Easton Ellis; Jean-Baptiste Grenouille, O Perfume, de Patrick Süskind; Hannibal Lecter, O Silêncio dos Inocentes, de Thomas Harris), mas, na sua essência, suplanta-os. Personagem-invenção por excelência (cada molde é único), ilustra contrassensos e choques íntimos intrincados e inesperados e assume formas diversas.
Na Antiguidade Clássica, o vilão apresentava características monstruosas, representando a essência do mal, o caos primordial e as forças incontroláveis da natureza (Equidna, Tifão, Górgonas, Hidra de Lerna, Esfinge, Quimera). Na Idade Média, tornou-se diabólico, seduzindo os homens para as trevas e o pecado (Satanás, Diabo, Anticristo). No Renascimento, ganhou forma humana, ambição e poder: Macbeth e Ricardo III (também protagonistas) ou Rei Cláudio, de Shakespeare. O romantismo acentuou nele a crueldade, a obsessão e o desejo de vingança (Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas; Javert, Os Miseráveis, de Victor Hugo), enquanto o realismo favoreceu os vícios burgueses, como a ganância, a hipocrisia, a ambição desmedida (vilões balzaquianos; professor James Moriarty, de Arthur Conan Doyle). O século XX deu-lhe, em simultâneo, forma estereotipada e complexidade psicológica (Conde Fosco, A Mulher em Branco, de Wilkie Collins; Alex, Laranja Mecânica, de Anthony Burgess; Tom Ripley, O Talentoso Ripley, de Patricia Highsmith); o pós-modernismo tornou-o ambíguo, e, num processo de progressivo apagamento, o vilão vai-se hoje dissolvendo em prol do destaque do protagonista e da dissolução das fronteiras estanques entre representações do bem e do mal.
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«E aconteceu que o sentido dos meus estudos científicos, que me conduziam à mística e às coisas transcendentes, suscitou e derramou imensa claridade neste carácter de guerra permanente entre o bem e o mal em que me debatia. Em cada dia, as duas partes da minha inteligência, a moral e a intelectual, atraíam-me mais e mais para esta verdade, cuja verdade parcial fora em mim condenada a tão pavoroso naufrágio: que o homem não é realmente uno, mas duplo. Digo duplo, porque o estado do meu conhecimento não passa além desse ponto. Outros poderão prosseguir, outros exceder-me-ão nestes limites; mas atrevo-me a conjecturar que o homem será um dia caracterizado pela sua constituição multiforme, incongruente e cheia de independência. […] se eu pudesse em rigor dizer que era qualquer das duas, seria ainda a prova de que eu era ambas. […] Se cada um, dizia eu comigo, pudesse habitar numa entidade diferente, a vida libertar-se-ia de tudo o que é intolerável. O mau poderia seguir o seu destino, livre das aspirações e remorsos do seu irmão gémeo, o bom; e este caminharia resolutamente, cheio de segurança, na senda da virtude, fazendo o bem em que tanto se compraz, sem ficar exposto à desonra e à penitência engendradas pelo perverso. Constitui uma maldição do género humano que estes dois elementos estejam tão estreitamente ligados; que no âmago torturado da consciência continuem a digladiar-se. Como, porém, dissociá-los?»
O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, Robert Louis Stevenson (trad. Cabral do Nascimento).
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Em 1984, aos 35 anos de idade, questionado sobre o porquê de os seus dois primeiros romances não incluírem personagens com carga negativa, Haruki Murakami desafiou-se a criá-los. Relata, em Romancista como Vocação: «No entanto, as coisas não correram como eu pensava, pois, naquele momento da minha vida, estava mais empenhado em criar um mundo próprio — harmonioso, seguro e estável, por assim dizer — do que em compor obras muito complexas. Do meu ponto de vista, precisava de criar e estabilizar o meu mundo, uma espécie de refúgio, a fim de enfrentar a dura realidade do mundo.» Com o passar dos anos, diz, e o amadurecimento como pessoa e como escritor, adquiriu paulatinamente a habilidade de incorporar «personagens negativas» nas narrativas ou, no mínimo, com inclinações e ações conflituosas. «Isso sucedeu porque o mundo próprio da minha ficção já estava construído e funcionava mais ou menos. O passo seguinte consistiu em aprofundar e harmonizar esse universo narrativo, o que colocou em cena uma maior variedade de personagens e multiplicou as suas ações. Senti a profunda necessidade de o fazer.»
Do testemunho do autor japonês depreende-se que a capacidade de compor vilões exige, antes de mais, a observação atenta e empenhada de comportamentos negativos por parte do escritor, para não dizer o reconhecimento deles em si mesmo: maturidade, em suma. Isto porque, apesar de, na sua versão mais pobre, os vilões poderem encaixar em estereótipos (o sedutor, o manipulador, o tirano, o ganancioso, etc.), as suas melhores versões subvertem essas limitações, exibindo uma gama rica de atributos e facetas que os tornam mais humanos e reais, ao ponto de suscitar no leitor ambivalência emocional, empatia e antipatia. Na sua forma excelentíssima, o vilão torna-se ele mesmo um símbolo que transcende o enredo em si.
Será difícil um escritor menos experiente investir numa artesania de personagem tão sofisticada quando ainda explora a identidade de uma voz própria, a originalidade do tema, a resistência do esqueleto narrativo, a plausibilidade do arco de desenvolvimento do protagonista, a narração e o estilo, mil pormenores em que se sente naturalmente inseguro ou mesmo desajeitado. A composição do vilão obriga ao entendimento da importância de projetar nas personagens a natureza contraditória do ser humano, a luta entre o desejo (de corresponder a algo que lhe é exterior) e a necessidade (a revelação daquilo que realmente lhe faz falta, interiormente), entre o aperfeiçoamento e a degeneração. Mais difícil ainda: há que garantir que a interação entre herói e vilão leve à transformação de ambos. O que pressupõe que o seu criador consiga afirmar, como Murakami o faz hoje: «Uma das coisas que me deixa mais feliz quando escrevo é a sensação de que posso ser qualquer pessoa, só preciso de querer.» Mas, então, como dar vida a um vilão que seja mais do que um patife unidimensional?
Aos passos da criação de um vilão pode chamar-se arquitetura da maldade. Seguem-se conselhos práticos. Comece por definir as motivações profundas que o impulsionam (externas e internas, conscientes e inconscientes, dando-lhes contornos eticamente questionáveis ou reprováveis. Sustentar de forma clara e coerente aquilo que move o vilão irá promover uma ligação mais estreita por parte do leitor, que procurará compreendê-lo, ainda que o reprove. Este primeiro desenho, fundamental para a humanização da personagem, deve incluir um esboço do passado, de possíveis traumas que a moldaram, das origens da sua visão distorcida da realidade ou de justificações plausíveis para as suas ações, até, talvez, de uma ligação antiga com o protagonista. Em seguida, planifique uma evolução dinâmica dessas motivações ao longo do enredo, garantindo sobretudo a complexidade e imprevisibilidade dessa jornada. Componha a personalidade do vilão: um eu visível, um eu secreto, um eu social. Evite estereótipos, inspire-se em arquétipos, sem os adotar totalmente. Evite o maniqueísmo; dê-lhe qualidades redentoras (que possam, ocasionalmente, gerar empatia no leitor). Pinte a figura com zonas sombrias, inconsistências, contradições, tiques, tudo o que possa torná-la única, sui generis.
É tempo de colocar o vilão em cena, isto é, de o fazer cumprir a sua função de gerador de conflito e impulsionador da história. Os reflexos das suas motivações e objetivos e da sua personalidade irão surgir em ação, interação e diálogo, tendo sempre em vista um contraste com os do protagonista e consequências diretas no enredo e nas outras personagens. Daí que seja este o momento de explorar as semelhanças e sobretudo as diferenças entre os dois polos da narrativa. Foque-se na criação de dinâmicas emocionais credíveis, num contraste, numa justaposição que exacerba os conflitos internos e externos do herói e proporciona a revelação do seu carácter. Arrisque estabelecer uma ligação insólita entre herói e vilão, por exemplo, um momento em que se veem forçados a conciliar esforços contra uma outra força negativa que age sobre os dois.
Por fim, lembre-se de que o vilão é forçosamente um manipulador, se não extraordinariamente inteligente, obrigatoriamente eficaz. Forneça-lhe táticas e dê-lhe recursos de persuasão e sedução, para além das indispensáveis artimanhas vis. Delineie um subtexto para a voz do vilão no diálogo. Prepare um desfecho.
Assentes as traves-mestras da maldade do seu vilão, comece a escrever. A partir daqui ser-lhe-á proibido julgar. Os dados estão lançados e cabe-lhe jogar dos dois lados do tabuleiro. Escute James Wood: «O pormenor é sempre o pormenor de alguém.» Um vilão a sério possui a arquitetura de um edifício sólido cuja sombra se projeta sobre o terreno da narrativa, mais escura e eficaz consoante a incidência da luz. O mau da fita é sempre um instigador mais ou menos imprevisível. Ele crê-se um visionário, justo na sua causa; o nosso julgamento da ação que exerce sobre os outros é que o torna maléfico. Afinal, a genuína personificação da malvadez é um prisma reflexo da realidade, onde o que se subtrai, em negativo, é tão importante quanto o que se acrescenta. Os vilões cuja descendência parece enfrentar inevitável extinção estarão surpreendidos com um final tão infeliz. Na verdade, cabe-nos a nós, agora, protegê-los de todo o mal.