Philip Roth: o humorista poliamoroso
Philip Roth: o humorista poliamoroso
Sai a biografia monumental de Philip Roth, o mais polémico escritor norte-americano. Mas, será que vale a pena sabermos (quase) tudo sobre ele?
Disse Philip Roth, ele mesmo: “A literatura não é um concurso de beleza moral.” Se o fosse, ele seria um dos monstros da festa, por direito adquirido em 30 títulos de ficção e 85 anos de vida (1933-2018). Pode fazer-se a prova agora, na biografia homónima lançada pela Dom Quixote, editora de quase toda a obra. O biógrafo autorizado, Blake Bailey (recém-acusado de assédio sexual) documentou-se até à exaustão e concluiu-a após a morte de Roth (2018). O monólito de 100 páginas está cheio de peripécias e faz que se aplique bem ao biografado a definição que este deu de Salman Rushdie: também ele foi “um excelente escritor” e, como ser humano, “um sacana interessante”.
Uma das maiores dificuldades de um candidato a escritor é a de projetar artisticamente a matéria autobiográfica, sem ser literal, obcecado, lamechas ou, tão só, enfadonho. Como alguém disse, Roth pegava na sua vida e na das pessoas à volta e colocava-as em ficção. Depois, queixava-se de os críticos o acusarem de não inventar coisas. E resmungava, muito, por exemplo, escrevendo um romance, “Casei com um Comunista”, em resposta ao livro de memórias da segunda ex-mulher, Claire Bloom. Sentia-se incompreendido, mas, no fundo, adorava sê-lo. “As pessoas amam-me! O que é que eu fiz de errado?”, confidenciou certa vez. Assegurou sempre que tudo o aborrecia de morte, à exceção da escrita.
Neto de judeus da Europa de Leste, Roth debateu-se toda a vida com a condição de assimilado/herdeiro e a definição de uma moral secular. No fundo, sempre, uma espécie de irritação sem foco. Em “O Complexo de Portnoy” (1969), o alter-ego protagonista masturba-se com a peça de fígado que depois será o jantar da família. E diz: pior que ser uma anedota de judeus é ser filho de uma. Acusado de solipsismo (como o seu herói Saul Bellow), misoginia e antissemitismo, Roth assumiu-se, em vez disso, como “humorista poliamoroso”, criador de caricaturas-espelhos de si mesmo (Nathan Zuckerman, Peter Tarnopol, David Kepesh). Num movimento associativo de memória e com descarada clareza, essas vozes dinâmicas traduzem a luta entre os imperativos individuais (liberdade, sobretudo sexual, felicidade e autoconfiança) e os da comunidade. Nesta biografia, confirmamo-lo, passo a passo.
Talvez de nada valha conhecer pormenores como o de Roth rezar quando se sente feliz ou manter ao pé da cama um pequeno rádio, em memória das noites passadas em criança na companhia do irmão. Mas é crucial, por exemplo, o episódio em que limpa a trampa largada por todo o lado pelo pai Herman em estado terminal: “uma das experiências mais extraordinárias e maravilhosas que alguma vez me aconteceram». A revelação e aprofundamento, a escalpe, da relação com os pais e com a herança judaica é uma das mais-valias deste livro, bem como a análise cuidadosa das preocupações com a evolução da escrita.
Também muito se revela sobre a crónica dificuldade de Roth em amar e ser fiel — a uma amante queixosa, esclareceu: “É claro que amo a Maria [personagem], ela não existe. Se tu não existisses, também te amava.” Regista-se a continuada prática de assédios, nalguns casos insidiosos. Uma doença coronária deixou-o impotente durante sete anos (1982-89), o envelhecimento obcecou-o. E ele, que adorava amantes esguias e loiras, foi expondo na obra, num tom cada vez mais negro, o extremismo emocional e sexual, temperado com autorreflexão sarcástica.
Roth defendeu em público que ao escritor não cabe propor uma solução para um problema, mas sim apresentá-lo de forma adequada. E reforçou: “O carniceiro que é a imaginação não perde tempo com delicadezas: atinge o facto na cabeça, rapidamente faz-lhe um golpe na garganta e com as mãos nuas arranca-lhe as entranhas... Quando a imaginação acaba de manipular um facto, podem crer, este deixa de ter qualquer semelhança com um facto.” A ficção é a verdade a mentir, uma alternativa à realidade, e essa é a sua condição maior. Ao escritor, a máxima que Roth aplicou a si mesmo: “Não julgues / Não tentes compreender / Não censures.” No seu caso, basta lê-lo, o que é suficiente desafio e prazer.