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Sábado · Crítica e ensaio

O género escondido da guerra

O PRAZER DA LEITURA

O género escondido da guerra

Seis mulheres jornalistas relataram a II Guerra Mundial como ninguém. Um livro histórico narra as suas rotas de vida nas linhas da frente e contra o preconceito.

A 29 de agosto de 1939, a correspondente de guerra inglesa Clare Hollingworth enviada pelo «Daily Telegraph» para a cidade polaca de Katowice, teve um pressentimento. Ao volante de um carro emprestado pelo consulado britânico, dirigiu-se à fronteira com a Alemanha. De súbito, o vento fez voar um dos montes de serapilheira que ladeavam a estrada, e a repórter viu no vale em frente... nove fileiras de tanques perfiladas para combate. No dia seguinte, Clare assinou o maior furo jornalístico do século XX: Hitler ia invadir a Polónia. Como Clare, cinco outras repórteres inscreveram os seus nomes a coragem e risco máximos na história da melhor cobertura da Segunda Guerra na Europa e no norte de África: as norte-americanas Martha Gellhorn, Lee Miller (fotógrafa), Helen Kirkpatrick, Sigrid Schultz e Virginia Cowles. Em 2021, a investigadora e crítica de dança inglesa Judith Mackrell fez a intersecção biográfica destes seis percursos no livro de não-ficção «As Enviadas Especiais», recém-publicado por cá. O relato da Segunda Guerra ganhou, assim, mais um decisivo contorno feminino, a juntar-se aos testemunhos de combatentes russas no Exército Vermelho compilados por Svetlana Alexievich em 1985 («A Guerra Não Tem Rosto de Mulher», Elsinore).

Sem acreditação formal, à partida menosprezadas por interlocutores e colegas masculinos, até mesmo pelos superiores, estas seis jornalistas no teatro de guerra entre 1939 e 1945 (ao todo foram 250), nunca se negaram ao embate com o motor maior da História: o conflito. E porque ele é também o principal catalisador da arte narrativa, a teia de episódios e peripécias profissionais e pessoais urdida neste livro é excecionalíssima e envolve-nos página a página. Ajuste histórico de género, «As Enviadas Especiais» representa um marco contra o preconceito, como tão bem o definiu Clare, após ser o único jornalista britânico a cobrir a chacina brutal de judeus em Bucareste, em 1941, e o «Express» a despedir: «É muito cansativo ser uma Cassandra, sempre condenada a dizer a verdade e a ser encarada com incredulidade.»

«As Enviadas Especiais», Judith Mackrell, Casa das Letras, 526 págs., 22.90€

© Filipa Melo · Todos os direitos reservados.

Texto fornecido pela autora. A data indicada provém do nome ou pasta do ficheiro original.

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