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Sábado · Crítica e ensaio

Contos, agora a cru

O PRAZER DA LEITURA

Contos, agora a cru

Mestre simbolista, Villiers de L'Isle-Adam regressa às livrarias portuguesas. São histórias ainda de espantar, à procura do avesso da realidade e da convenção.

Este livro vem endereçado «aos sonhadores, aos escarnecedores». O autor convidou-os assim na dedicatória de «L'Ève Future» (1886), romance que inspirou Fritz Lang e Thea von Harbou na composição da mulher andróide de «Metrópolis», que serve também estes «Contos Cruéis», de 1883. Augusto, marquês de Villiers de L'Isle-Adam (1838-1889) dirige-se, pois, a quem se desgosta com a realidade. Precursor da ficção científica, ele foi, mais do que isso, um desses autores tidos por abstrusos ou malditos no seu tempo, mas que hoje se descobrem como peças raras de um museu de técnica e desafio.

Descendente de uma família aristocrata em declínio, jornalista, amigo de Baudelaire e Mallarmé, Augusto viveu, a vários títulos, como um decadente. Joris-Karl Huysmans (outro segredinho bem guardado) refere-o como um dos autores favoritos do excêntrico Jean des Esseintes, o anti-herói de «Às Arrecuas», que se isola do mundo para criar, através da «ioga dos sentidos», a casa perfeita para um espírito refinado e delirante, ao ponto de incrustar pedras preciosas na carapaça de um cágado vivo, só para o ver passear cintilâncias. Como des Esseintes, os personagens destes 28 contos (a antologia chegou cá em 1971, pela Estampa; é pena esta atual não incluir os nove contos adicionados pelo autor em 1888 à primeira edição) são seres de laboratório, criados para fugir aos padrões do positivismo e da literatura naturalista.

Em «Dois Áugures», um jovem tenta convencer o diretor de um jornal de que possui tudo o que este procura num aspirante a jornalista: alguém sem talento, «dotado de uma pascacice de ideias e de uma trivialidade de estilo de primeira ordem», avesso à revisão de texto e que queira manter-se um absoluto desconhecido e, em suma, um cretino. Sobretudo, tal «plumitivo» medíocre não deve jamais aspirar a escrever «Literatura», o que baixaria inevitavelmente a tiragem do jornal e goraria os sonhos do diretor: ascender a ministro! À la L'Isle-Adam, o mecanismo utilizado neste, como nos restantes contos, quer se trate de sátira, fantasia ou meditação, é o de ódio desmistificador ao lugar-comum e à realidade traduzido em experimentação idealista.

O céu usado como tela publicitária, dois apaixonados por dinheiro, uma máquina de produzir glória, outra a ensinar crianças a não se sentirem infelizes pela morte dos pais, um homem fascinado por execuções capitais, um ator que se faz pirómano para fingir de verdade, um médico «estupefactivo» que inventa tratamento radical para curar pessoas «que ouvem tudo ao contrário»... Às urtigas o romantismo e o realismo (o escritor foi, primeiro, devoto de Flaubert, depois, do ocultismo), o progresso e o apuramento determinista, a realidade «como ela é». Espécie de fábulas tortas, as narrativas rebeldes de L'Isle-Adam opõem-lhes presenças indefiníveis, evocações mais do que descrições, ideais primitivos ou esotéricos, a «crueldade» do sonho e da imaginação. A sua única moral é a de que «os actos são, portanto, indiferentes enquanto físicos: só a consciência de cada um os faz bons ou maus».

«Contos Cruéis», Villiers de L'Isle-Adam, Diogo Paiva (trad.), Cavalo de Ferro, 292 págs., 18.85€

© Filipa Melo · Todos os direitos reservados.

Texto fornecido pela autora. A data indicada provém do nome ou pasta do ficheiro original.

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