Carlos Drummond de Andrade: abraçando o absurdo
Carlos Drummond de Andrade: abraçando o absurdo
São 150 impressões digitais baseadas no senso comum, mas destoantes e risíveis. Sai por cá a antologia dos contos «plausíveis» de Carlos Drummond de Andrade.
Diz-nos Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), logo na curta introdução a esta antologia de ficções curtas, que o melhor de todas elas (são 150) não será para os nossos olhos. É «bobo, anão, contente da vida», este melhor amigo do poeta ficcionista, vive e anda no bolso dele, «é um continho em branco, de enredo singelo, passado todo ele na antena esquerda de um gafanhoto». Estão assim arremessados os dados para o excecional jogo de leitura criativa de «Contos Plausíveis», pequenos nacos de prosa escritos, dia a dia, a partir de 1969, para uma coluna no «Jornal do Brasil», e publicados em conjunto em 1981.
Quotidiano e tributável, funcionário público durante 35 anos, carioca nascido no campo mineiro, Drummond, em entrevista dada pouco antes da morte, indicou como seu principal partido a imaginação, «aquela coisa profunda que vem das entranhas da gente» e que estava sendo morta pelo modernismo. A poesia, que o colocou nos píncaros da literatura em língua portuguesa, surgia-lhe numa «certa exaltação física, um certo ardor». Nestes contos, escritos «sem intermediação de forças misteriosas», descobrimo-lo à solta, vagando pelos mais diversos temas, burilando a carga poética e enigmática do quotidiano. É Drummond no seu talentoso exercício oficinal, na dicção ligeira de episódios desgarrados, contados quase oralmente e trabalhados com recursos a artimanhas irónicas que servem de anzol para o espanto do leitor.
«O real é da ordem do acaso» e esta antologia quase organismo vivo «apresenta-se como um catálogo, reunindo possibilidades do género, cujas hipóteses de variação parecem impedir qualquer ordem que não esta», afirmam Joana Matos Frias e Rita Patrício no posfácio desta edição da Tinta-da-China. Drummond fez o mesmo gesto agregador quando, em 1962, crendo estar perto do fim, antologiou todos os poemas por categorias temáticas e impôs um princípio orientador para a leitura da sua obra poética.
Apesar deste impulso organizador que determinou também a arrumação desta antologia, o artifício de «Contos Plausíveis» mantém-se metonímico: o reconhecimento de elementos triviais é desestabilizado por uma nova leitura dos seus «nomes» ou da sua [ir]realidade. A volta do cabo que dá rapidamente o nó em cada uma destas pequenas histórias é uma espécie de espasmo do sentido, tal qual o que rege «A incapacidade de ser verdadeiro» de um certo menino, Paulo, tido por mentiroso e afinal diagnosticado como «um caso de poesia». Como uma «Orquestra odiosa», desarmónica por excelência dadas as marcadas desavenças entre os vários instrumentos, o auge do esplendor ocorrerá por «um assassinato nas cordas».
Moderno, não modernista, Drummond de Andrade substitui o efeito de ligação pelo efeito de descontínuo, esse artifício que Pascal Quignard (em «Um Incómodo Técnico em Relação aos Fragmentos») associou à originalidade absoluta de Jean de la Bruyère (1627-1704), pai do texto fragmentário. Nos dois casos, a forma fragmentária, paradoxalmente, não trai o apelo genérico e duradouro de unidade e simetria. Estas curtíssimas narrativas (im)plausíveis, apesar de homogéneas e encadeadas, estão escancaradas ao imprevisto, a uma atmosfera extra-ordinária que repugna o entendimento lógico: «exatamente como a vida».
No admirável «A verdade dividida», Drummond explica: «A porta da verdade estava aberta / mas só deixava passar / meia pessoa de cada vez. // Assim não era possível atingir toda a verdade, / porque a meia pessoa que entrava /só conseguia o perfil de meia verdade. / E sua segunda metade / voltava igualmente com meio perfil. / E os meios perfis não coincidiam.» Questiona ainda o autor: será capricho, ilusão ou miopia? Digamos que se trata de génio e o convite fica feito: esfregue a lâmpada de cada um destes 150 contos e verá de que é feita a melhor prosa poética.
«Contos Plausíveis», Carlos Drummond de Andrade, Tinta da China, 15.90€