Como criar um jardim secreto
Como criar um jardim secreto
Emily Dickinson coleccionou folhas e flores, com a delicadeza misteriosa com que escreveu poemas. Ana Luísa Amaral traduziu-a com amor e génio.
Dois meses após a morte de Ana Luísa Amaral, aos 66 anos, chega às livrarias «Herbarium», um livro ilustrado e bilingue com uma beleza rara: o herbário de Emily Dickinson (1830-1886), acompanhado por cerca de 51 primeiros versos de poemas traduzidos pela poeta portuguesa. Ana Luísa dedicou-se ao estudo e divulgação da poesia de Emily (antes traduziu-a Jorge de Sena) com zelo e deslumbramento semelhantes aos que a norte-americana aplicou a preservar e classificar folhas e flores recolhidas nos bosques e prados e no jardim da casa abastada onde sempre viveu, a dos pais, na pequena cidade colegial de Amherst, no Massachusetts. À exceção de um ano num seminário feminino e de duas curtas viagens, e até aos últimos anos, quando se restringiu ao quarto, onde circulava vestida de branco, esse foi o espaço-circunferência de Dickinson. Uma espécie de mundo em miniatura, vibrante de inventividade, como aquele que a criança solitária constrói e mantém como espaço de segredo e de sonho, ao fundo do jardim.
«Para haver pradaria, basta trevo, uma abelha,/ Um trevo, abelha,/ E fantasia./ Chegava a fantasia,/ Se poucas as abelhas.» Dos 1789 poemas da poeta, apenas 10 foram publicados em vida (para ela, a fama comprometia a liberdade artística). A partir dos 18 anos, Emily anotou-os e agrupou-os em livrinhos que cosia à mão, «fascículos» numa pequena parte enviados a amigos, por fim, todos guardados num baú. A maioria em estâncias de quatro versos, concisos e enigmáticos, os poemas destacam-se, como identificou Ana Luísa Amaral, por uma «subjetividade moderna» e uma «poética da transgressão». São fragmentos-revelações do universo que a poeta compõe, manufaturando a linguagem com «surpreendente originalidade cognitiva» (Harold Bloom). Fazendo uso singularíssimo do travessão e da elipse, de desvios sintáticos e semânticos, Emily criou um acento e uma entoação absolutamente únicos: assim também cada exemplar da natureza que colou no seu herbário. «A Manhã — é o lugar do Orvalho —/O Milho — faz-se ao Meio-Dia —/ A luz o jantar — para as flores —/Mocho-real — quando é Sol-Pôr!»
Só aparentemente “difíceis”, estes poemas são e provocam, sobretudo, revelação e espanto. A poeta, a quem chamavam a Grande Reclusa, comunica verso a verso, dramatiza estados emocionais, paisagens, quadros e detalhes, destila a Mente, o Louvor e a Natureza. Como defendeu Ana Luísa Amaral: «Entender totalmente, em Dickinson, o que “o poema quer dizer” é muitas vezes tarefa impossível. Por vezes mais fácil é o oposto: o que o poeta não diz, e assim revela, o próprio efeito de omissão, denunciador de excesso.»
«Herbarium», Emily Dickinson, Relógio d’Água, 187 págs., 17.50€