A morte voa com os pássaros
A morte voa com os pássaros
Decidido a suicidar-se, um homem passa um ano a pôr a vida por escrito e a nu. Ele é o protagonista, nada heróico, do novo romance de Fernando Aramburu.
Toni tem 54 anos, é «um pobre homem», vive em Madrid na atualidade, e não vai durar muito. Decidiu suicidar-se daqui a um ano, após os andorinhões voltarem à cidade. Entretanto, escreve um diário onde, livre de censura, faz o balanço de como se foi arrastando «pelos chãos da vida», sem fazer nada de verdadeiramente meritório. As confissões de Toni compõem, na íntegra, as mais de 800 páginas de «O Regresso dos Andorinhões», do catalão Fernando Aramburu, que sucede ao êxito estrepitoso de «A Pátria», romance multipremiado, adaptado para televisão pela HBO e com um milhão de exemplares vendidos em Espanha.
Toni não tem qualquer motivo grave para querer suicidar-se. Não o fará sequer porque existe alguém que, há anos, lhe deixa bilhetinhos anónimos na caixa do correio, apontando-lhe defeitos e ridicularizando-o. Toni acha apenas que já fruiu o suficiente e enjeita o tédio, a decadência e as constrições da velhice. Só se arrepende de duas coisas: ter vivido com a ex-mulher e não ter amado o suficiente o filho. Pensa muito no pai e na mãe, e no irmão, que detesta. Tem uma cadela chamada Pepa, uma boneca sexual chamada Tina, que é o seu ideal feminino (a misoginia é prato-forte por aqui), e um amigo de extrema-direita. «Desconfio por princípio de tudo o que menospreza a serenidade. Não sinto obrigação nenhuma de ser feliz. Tenho alergia ao conceito de utopia», confessa ele. Professor de filosofia, lê Goethe, Montaigne e José Saramago, mas é incapaz de considerações brilhantes sobre o que viveu ou o rodeia. Então, para quê ler o relato de uma vida tão anódina e sem sobressaltos?
A maior virtude e originalidade de «O Regresso dos Andorinhões» é o protagonista não possuir nenhuma destas qualidades, nem o desejar sequer. Nada de pirotecnia estilística, também. Espécie de «Big Brother» literário, com um único concorrente, este romance expõe, a nu e cru, a vida de um cinquentão madrileno um pouco mais amargurado do que o comum, cuja revelação de intimidade, página a página, se torna radical na sua «normalidade» e mesmice. Através da ironia sarcástica e maldosa que assoma na prosa do narrador, o autor pisca os olhos ao leitor: o que aqui se lê foi imaginado para ser igual ao que se vive, mas é pura ficção e crítica social. Toni é o Dom Quixote pós-moderno, sem propósito nem feito particular, mas cuja conjugação única de realidade e auto efabulação se revela preciosa e vital.
«O Regresso dos Andorinhões», trad. Cristina Rodriguez e Artur Guerra, Dom Quixote, 808 págs., 27.70 euros