Como produzir ouro, em segredo?
Como produzir ouro, em segredo?
As mulheres participaram na busca do ouro alquímico, como em muita da história da Química, ainda que na sombra. João Paulo André ilumina esse contributo.
Desfigurada pela varíola aos 23 anos, Madame d’Arconville escondeu-se do mundo, dedicou-se ao estudo e à investigação experimental e, em 1766, publicou um importante ensaio sobre a putrefacção, mas sob anonimato. Como ela mesma fez notar quanto a mulheres que publicassem, «se as suas obras são más, são assobiadas; se são boas, são ignoradas, nada mais lhes restando senão o ridículo de se terem declarado suas autoras». Negando o preconceito milenar de que “mulher perfeita é aquela de que nunca se ouviu falar», em doze capítulos cronológico-temáticos, das perfumistas e hermetistas ou meras praticantes das «artes químicas» a nível doméstico na Antiguidade até às nobelizáveis e nobelizadas no séc. XX (as Curie à cabeça), João Paulo André, professor de Química na Universidade do Minho e comentador de ópera na Antena 2, presta justíssimo tributo às mulheres que participaram na génese e evolução desta disciplina. «Irmãs de Prometeu: A Química no Feminino» sucede a outro excelente ensaio deste autor, «Poções e Paixões: Química e Ópera» (2018, editado em livro pela Gradiva; em «braille e versão áudio para invisuais pela Biblioteca Nacional).
Não é um lugar-comum elogiar um ensaio de divulgação científica dizendo que «se lê como um romance» porque, na verdade, a difusão generalizada de conhecimento em qualquer área lucra muitíssimo com um bom suporte narrativo, capaz de cativar até o leitor mais ignorante da matéria em questão. Neste livro, o enredo é simples: como as mulheres e os que sabiam fazer (práticas com processos físico-químicos, na cozinha, na tinturaria, na perfumaria, na alquimia ou na medicina caseira) driblaram, ao longo dos tempos, o desprezo que lhes dedicaram sábios e academias.
Através das peripécias de quase 200 protagonistas (e múltiplas referências satélite), narra-se e pontua-se a história até à química moderna e ao acesso feminino às universidades, aos laboratórios e à ciência de ponta. Como exemplo e só para abrir apetite, destaque-se como a astuta Catarina Sforza coligiu receitas secretas de farmácia (também do foro sexual, encriptadas), cosmética e alquimia; a visão atomística da espampanante Margaret Cavendish, Duquesa de Newcastle; a capacidade de Madame Lavoisier receber ilustres com o melhor «déjeuner anglais» bem como equiparar-se ao marido em conhecimentos científicos; ou o percurso de Edith Ellen Humphrey, a primeira inglesa a doutorar-se em Química, pela mão do suíço Alfred Werner, que usufruiu das suas conquistas laboratoriais para ganhar o Nobel, antes de ela terminar empregada numa empresa de tecidos e papéis de parede. Quanto aos detalhes de cada percurso, são ouro puro a descobrir nesta versão ainda bastante secreta da história da Química.
«Irmãs de Prometeu», João Paulo André, Gradiva, 658 págs., 22.50€