Literatura: capaz de salvar o quê?
Literatura: capaz de salvar o quê?
Mohamed Mbougar Sarr, senegalês, venceu o Goncourt com um suposto romance-bomba. O desafio central é: o que pode a ficção fazer ou desfazer da vida?
Sempre acreditei que está tudo nos livros: e está (ou quase, quase). Nunca acreditei que um livro, ainda menos de ficção, fosse capaz de salvar ou redimir alguém, escritor ou leitor, do que quer que seja. Mas, será que um livro é capaz de destruir alguém? E quanto de verdade e totalidade de uma vida pode ser apreendido através da ficção ou da biografia? Isto a propósito de «A Mais Secreta Memória dos Homens», prémio Goncourt 2021, e das especulações que tem provocado mundo fora sobre a extensão do domínio da literatura. Agora traduzido em português, o quarto romance de Mohamed Mbougar Sarr (n.1990, Senegal) parte da personagem Diégane Latyr Faye, um jovem senegalês contemporâneo, aspirante a escritor, que investiga os vestígios e o mito do também senegalês T. C. Elimane, autor de um só livro, «O Labirinto do Inumano». Esse romance, aclamado em 1934 com estrondosa unanimidade, foi logo depois aniquilado por acusações de plágio (da lenda fundadora da comunidade de habitantes de uma zona dizimada e abandonada do Senegal, o Bassère), retirado do mercado e transformado em obra de culto, e o seu criador numa espécie de Rimbaud maldito. O enredo baseia-se no destino verídico de Yambo Ouologuem (1940-2017), de origem aristocrata e formado em Paris, primeiro escritor de origem africana a vencer um prémio literário francês importante (Renaudot), que mergulhou na reclusão (no Mali natal) após a obra de estreia em questão, «Le Devoir de Violence» (1968), ser rejeitada por plágio.
À inspiração real, Mbougar Sarr juntou muitas outras referências literárias e históricas (a ação cobre o século XX, em três continentes) e elementos de «thriller»: por que morreram todos os críticos que desprezaram «O Labirinto do Inumano»? Com mais de 400 páginas, num estilo habilidoso, ora fulgurante, ora entediante, «A Mais Secreta Memória dos Homens» é um romance para escritores e críticos, ou, quando muito, para leitores que se interessam por questionar a literatura. Porquê? Porque se divide em três livros (e várias partes) e quatro aproximações biográficas programáticas. Para estas últimas, Mbougar Sarr vai buscar um termo, «biografemas», aplicado por Roland Barthes precisamente ao registo biográfico circunscrito a só um evento, característica ou detalhe, tomado como epicentro explícito da complexidade implícita da vida toda do biografado. Trata-se de uma experimentação pós-moderna, de construção de uma teia de enredos, que se contaminam e, ao mesmo tempo, implodem – exigindo esforço e atenção invulgares por parte do leitor.
A ambição de Mbougar Sarr é evidente: «épater» (impressionar, provocar) o meio literário francês (ainda manifestamente burguês e pedante), explorando todos os recursos técnicos à mão, mas também feridas históricas entre colonizados e colonizadores e a rivalidade tão na moda entre valores instituídos e propostas marginais. A proposta é super-meta-literária: a obra esquadrinha a literatura, com exemplos, teorias e especulações sobre as suas possibilidades, das estéticas às «efetivas» (transformadoras do real). Erudição e fantasia (até magia) andam a par com despudor e crueza (até crueldade). Por exemplo, no encontro inicial de Latyr Faye com a escritora-Aranha-mãe, inspirado pela pulsão sexual e consumado em reflexão sobre a estetização literária do sexo. A musa (a literatura) acabará por engolir ou salvar o protagonista (o escritor)? Ao leitor, a experiência de o descobrir, neste insólito desafio de «relação íntima» com o que lê.
«A Mais Secreta Memória dos Homens», Mohamed Mbougar Sarr, Quetzal, 438 págs., 19.90€