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SOL · Crítica e ensaio

O Senhor Vazio

O PRAZER DA LEITURA

O Senhor Vazio

Publicado em 2006 em Inglaterra e já este ano nos Estados Unidos, «Viagens no Scriptorium», o mais recente romance de Paul Auster, acaba de chegar às livrarias portuguesas. Ainda que sem a vitalidade inovadora das obras da década de oitenta (sobretudo «Trilogia de Nova Iorque»), com ele Auster prova ser ainda o melhor representante daquilo a que os críticos chamaram a ficção detectivesca metafísica. Hábil a construir atmosferas com cenários parcos (aqui, basta uma casa de banho e uma sala, uma janela, uma mesa, uma cama e uma cadeira), recheia-as com meditações cerebrais e dúvidas existenciais e, com segurança, gere a expectativa do leitor em torno de mistérios dúbios. Desta vez, leva longe demais a sua paixão pelo processo de escrita.

Mr. Blank (Sr. Vazio) é um escritor aprisionado num quarto. Sofre de amnésia, mas sente um «implacável sentimento de culpa» quando é sucessivamente visitado pelas personagens dos seus livros (todas saídas da bibliografia de Auster). Serão elas reais ou apenas fantasmas alucinatórios? Ou não será ele mesmo, Mr. Blank, fruto de uma qualquer ficção?

Num jogo de espectros, em «estado de constante incerteza», a leitura avança sem depender de uma intriga. Auster interessou-se mais por exibir piruetas técnicas e provar a transcendência das personagens. A opção levou a crítica mais importante a apontá-lo mais uma vez como um técnico seco e teórico. Com ressonâncias de Kafka e Beckett, mas já estafado pelas circumnavegações à volta do próprio umbigo.

Viagens no Scriptorium

Paul Auster

Edições Asa

128 págs., 10 euros

© Filipa Melo · Todos os direitos reservados.

Texto fornecido pela autora. A data indicada provém do nome ou pasta do ficheiro original.

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