Chegou o Coelho
Chegou o Coelho
Muitos defendem que John Updike é um escritor para escritores, um autor cujo talento é sobretudo apreciável por parte daqueles que o invejam e procuram imitar. Talvez seja porque na escrita de Updike tudo o que parece simples e fluido resulta afinal de uma complexidade feita de teoria, treino e técnica. Updike é não só um brilhante ficcionista, mas também um excelente poeta, ensaísta e crítico literário. Não é um escritor que se filie em temas, mas consegue escrever sobre todos os temas com um à-vontade desconcertante, comprovado nos seus 22 romances. Embora tal não fosse necessário, a sua mais recente ficção, «O Terrorista», voltou a comprová-lo: aos 74 anos, Updike resiste como uma espécie de farol, um dos mais influentes intelectuais norte-americanos. Na base desta sua longeva celebridade está afinal o facto de, para o leitor comum ou experimentado, a leitura de uma das suas obras poder funcionar como um salto de uma prancha muito alta sem se saber muito bem onde se vai aterrar da queda.
Foi assim também, em suspensão e choque, que a sua obra mais famosa foi recebida em 1960. Pode lamentar-se o atraso na chegada a Portugal, mas «Rabbit, Run» («Corre, Coelho») não perdeu o brilho entretanto. A tradução não fará inteiramente juz a esta escrita cuja vibração e substância se manifesta palavra a palavra, frase a frase, mas ainda assim esta é uma edição histórica. Acedemos ao mundo de Harry «Coelho» Angstrom, na esperança da edição próxima dos outros títulos da tetralogia («Rabbit Redux», 1971, «Rabbit is Rich», 1981, «Rabbit at Rest», 1990, e a novela «Rabbit Remembered», de 2001).
Mas por que é tão importante este Coelho? Porque a partir dele Updike fez uma imbatível crónica da alienação como ferrete da identidade norte-americana. Aos 26 anos, este banal sujeito da classe média tem um emprego medíocre, um filho pequeno, uma mulher grávida, “tola” e alcoólatra, uma prostituta por amante, uma vida que mais parece uma armadilha. Decide fugir, regressa, corre de novo. É anedótico, cobarbe, arrogante nos afectos, na imaturidade, no sexo (e, atenção, Updike assinou as melhores páginas de sexo alguma vez escritas). Apenas uma máxima o guia: «Se tiveres coragem para seres tu mesmo, outros pagarão tudo por ti.» Coelho é a matéria sem qualidades com a qual Updike abriu os horizontes da literatura.
Corre, Coelho
John Updike
Civilização
301 págs., 18 euros