Com todos, na Sicília
Com todos, na Sicília
Para desfazer os delírios dos nostálgicos, que afirmam que de bom grado trocariam a existência no presente por outra, num passado recuado, talvez baste lembrar que a penicilina foi descoberta somente em 1928. Sem antibióticos, continuariam dispostos a entrar numa máquina do tempo? Mais segura é com certeza a viagem a partir dos romances históricos, tão em voga nas últimas duas décadas. Mas também essa releva mais do contexto da ficção actual do que de um verdadeiro confronto com a História.
Vem isto a propósito de «A Dançarina do Ventre», o décimo quinto romance do inglês Barry Unsworth. Vencedor do Booker Prize em 1992 com «Sacred Hunger», sobre o comércio de escravos da costa ocidental africana para a Florida, Unsworth tem muitos fãs no mercado de língua inglesa. Da Guerra de Tróia aos últimos dias do Império Otomano ou à Inglaterra do século XIV, as suas ficções cobrem um largo panorama histórico e a crítica elogia-as pelo realismo e atenção ao detalhe. Agora, é a Sicília no século XII.
A ilha torna-se reino independente em 1130, e o normando Rogério II governa-a sob a fama de mais completa sociedade multicultural, heterogénea e eclética. É nesse caldo de paz somente aparente entre cristãos, muçulmanos, gregos, judeus e latinos que se move Thurstan Beauchamps, o protagonista e narrador.
Thurstan é um anti-herói, que apenas ambiciona tornar-se cavaleiro, viver a paixão de infância por Lady Alicia e o prazer carnal com a dançarina anatólia Nesrin (cujo relevo existe apenas no título). Como Provedor de Prazeres e Espectáculos da chancelaria que gere os limites de propriedade e o pagamento de taxas, ele é afinal um peão ingénuo das facções conspirativas do reino. Num romance histórico de suspense, bem escrito e veloz, entre tramas de amor, traição e tentativa de regicídio, Unsworth usa-o para passar uma mensagem moralista de apelo contemporâneo à união entre os povos. E a História volta a servir os gostos do presente, como suave e indolor injecção das lições do passado.
A Dançarina do Ventre
Barry Unsworth
Civilização Editora
314 págs., 16 euros