O tesouro de Duras
O tesouro de Duras
A arte da mentira não é propriedade exclusiva dos escritores, bem o sabemos. Mas é com eles que ela atinge uma das suas raríssimas dimensões positivas. É esta a máxima a retirar do legado bio-bibliográfico da escritora Marquerite Duras. Nascida com o apelido Donnadieu em 1914, na Indochina Francesa (hoje Vietname), Marguerite aproveitou ou adulterou cada detalhe concreto de 81 anos de vida para com eles alimentar 53 anos de escrita. Gostava de insistir: «A verdade está toda nos meus livros.» No seu caso, a ficção imitou a realidade com a mesma facilidade com que se deu o caso inverso. Mas, não é esse afinal o tesouro maior da Literatura?
A Oceanos (chancela da Asa) acaba de publicar «Os Cadernos da Guerra», um documento excepcional sobre a alquimia monstruosa, e simultaneamente milagrosa, da verdade e da mentira praticada por Duras. Em cerca de 300 páginas, neles se pode ler a transcrição exacta dos diários que Marguerite escreveu entre 1943 e 1949 e depois resguardou, até à morte, nos famosos «armários azuis» da sua casa em Neauphle-le-Château. Trata-se da parcela mais singular das 18 caixas de cartão, repletas de documentos inéditos, que o seu filho, Jean Mascolo, cedeu em 1995 ao francês Instituto Memória da Edição Contemporânea (IMEC).
Trabalhadora incansável, Duras reescreevia várias vezes cada uma das suas obras. Daí que destes quatro pequenos cadernos, correspondentes aos anos iniciais de escrita, constem esboços e primeiras versões dos fundamentais «Uma Barragem contra o Pacífico» (Difel), «O Marinheiro de Gibraltar» (Publicações Dom Quixote) ou «A Dor» (Difel). A sua justaposição a inúmeros textos autobiográficos assegura a consistência temática e cronológica de «Os Cadernos da Guerra».
Aqui, tudo tem que ver com tudo. A ficção funde-se com as referências confessionais (já analisadas por Laure Adler na biografia «Marguerite Duras», Difel, 1999) à infância e adolescência na Indochina, ao desamor da mãe, às mortes do pai, do irmão e do primeiro filho, à Segunda Guerra e ao envolvimento na Resistência, ao triângulo amoroso com Dyonis Mascolo e com o marido (Robert Antelme) ou ao modo pungente como acompanhou Antelme quando ele regressou como um farrapo humano do campo de concentração de Dachau. Aqui, Duras é já em pleno uma escritora moderna; uma narcísica criadora de ficção.
Cadernos da Guerra
Marguerite Duras
318 págs., 18 euros