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SOL · Crítica e ensaio

Sombras em Buenos Aires

O PRAZER DA LEITURA

Sombras em Buenos Aires

Glosado como poucos, o conto «O Aleph», de 1949, resume a metáfora da unidade na multiplicidade (um é todos) central em Jorge Luís Borges (1899-1986). Aleph, primeira letra do alfabeto hebraico, é o En Soph da Cabala, «um ponto para onde convergem todos os pontos», epicentro também da labiríntica espiral narrativa borgiana. Sobre o desespero do escritor, Borges define: «Toda a linguagem é um alfabeto de símbolos cujo exercício pressupõe um passado que os interlocutores compartilham; como transmitir aos outros o infinito Aleph, que a minha tímida memória mal abarca?» Em 2004, o argentino Tomás Eloy Martínez centrou nesta herança de Borges um romance surpreendente. «O Cantor de Tangos» acaba de sair pela Asa.

Recém-doutorado em Letras, o norte-americano Bruno Cadogan prepara uma dissertação sobre os ensaios que Borges dedicou às origens do tango. Anda perdido no tema até que ouve falar do cantor de tangos antigos Julio Martel e decide partir para Buenos Aires, à procura dessa voz mítica, nunca gravada, mas que, para muitos, supera a de Carlos Gardel.

O ano é 2001 e a Argentina vive uma aguda crise económica e social que culminará na mobilização popular massiva, nos «dias enlouquecidos» de Dezembro. À chegada a Buenos Aires, Cadogan é encaminhado para a Calle Garay, a de «O Aleph», e hospeda-se numa residencial que, tal como no conto, possui uma cave com dezanove degraus íngremes, como esse «lugar onde estão, sem se confundir, todos os lugares do mundo, vistos de todos os ângulos». Dali, partirá à procura do passado do hemofílico e deformado Martel, que só conhecerá no final do romance.

A intrincada e digressiva narrativa de Eloy Martínez (que grafa o discurso directo de modo indiferenciado) tem qualquer coisa da precisão, da improvisação e da «coreografia de combinações infinitas» de um tango. A tormentosa história da Argentina desde 1810 é apresentada a partir da inocência de Cadogan na busca de uma coerência lógica para um mapa da vida e dos locais onde Martel cantou. O «Aleph» não está afinal nas ruas de Buenos Aires, «onde só havia caminhos que não levavam a lado nenhum». Cadogan, e o leitor, encontram-no antes pelas linhas de escuridão, «que assinalavam os espaços onde viviam as pessoas» e que se revelam como um texto, numa «longa sucessão de trovões» (Walter Benjamin).

O Cantor de Tango

Tomás Eloy Martínez

Edições Asa

186 págs., 16 euros

© Filipa Melo · Todos os direitos reservados.

Texto fornecido pela autora. A data indicada provém do nome ou pasta do ficheiro original.

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