À procura da memória
À procura da memória
Esta é “uma história apócrifa e corroída pelo tempo”. Um jogo de gato e rato com a memória. Um puzzle construído a partir de perdas e procuras de identidade. Este é um romance português “novo” porque é totalmente estrangeiro em relação às várias linhagens da ficção nacional. Segundo livro de João Tordo, Hotel Memória chegou esta semana às livrarias.
Já na estreia, em 2004, com O Livro dos Homens Sem Luz (quatro novelas entrelaçadas como um romance) o autor surpreendeu pela agilidade com que trabalha em terrenos de manifesta influência anglosaxónica. Desta vez, afasta a ligação ao fantástico, mas procura manter-se na linha do romance detectivesco pós-moderno de Paul Auster.
O protagonista, e único narrador, é um estudante bolseiro (originário de “uma pequena cidade europeia”) que, aos 27 anos, chega a Nova Iorque para iniciar uma pós-graduação em Literatura Inglesa. Meses depois, a violência da morte da misteriosa rapariga por quem se apaixonara atira-o para “uma vida subterrânea, coberta de areia, de pó, de pequenas criaturas ruminantes, de silêncio interrompido pelo grito gelado do sepulcro”. Deixando-se engolir pela metrópole, ele irá colocar-se fatalmente no rasto de um fadista português emigrado 40 anos antes e desaparecido algures em Nova Iorque...
Como ficção de mistério, feita do cruzamento de acasos, coincidências e manipulações que colocam em rede a chave para a identidade de várias personagens, Hotel Memória é um exercício bem sucedido. O autor domina as mudanças de plano temporal dos acontecimentos narrados, os registos das personagens, a construção de atmosferas e a gradação do suspense. Prende o leitor pelo puro prazer de acompanhar o desenvolvimento de uma história bem urdida e bem escrita.
Menos conseguida, mas ainda assim cativante, é a tentativa de aproximação ao universo de metaficção e de questionamento existencial presente nas obras de Auster. É certo que pressentimos que o narrador de Hotel Memória, sob o pseudónimo de Bartleby, optou por não ser, ou ser apenas a partir dos “contornos ilusórios” da realidade e da memória. Mas o autor, demasiado ocupado em manter estruturada a “realidade” na narrativa, vai descurando esta dimensão da personagem solitária que a questiona em busca de um sentido que dificilmente encontrará nela.
Hotel Memória
João Tordo
Quid Novi
221 págs, 14.95 euros