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SOL · Crítica e ensaio

Um encontro inédito

O PRAZER DA LEITURA

Um encontro inédito

Quase dez anos passados sobre a sua morte (a 16 de Outubro de 1998, por acidente vascular cerebral), José Cardoso Pires reserva-nos uma surpresa. «Lavagante: Encontro Desabitado» é uma curta narrativa inédita que marca a estreia da chancela Edições Nelson de Matos. E a revelação deste texto, trabalhado talvez entre 1963 e 1968 e deixado em versão final dactilografada, é como uma dessas risadas pequenas que Cardoso Pires soltava de repente no meio dos solavancos de uma conversa, a voz cava, o pestanejar dos olhos a acompanhar o movimento largo dos braços.

De «Os Caminheiros e Outros Contos», a estreia em 1949, ao livro de crónicas «Lisboa, Livro de Bordo», de 1997, passando por obras maiores como «O Hóspede de Job», «A Balada da Praia dos Cães», «O Delfim» ou «Alexandra Alpha». José Cardoso Pires (nascido em 1925) é em definitivo um dos nomes mais importantes da literatura portuguesa do século XX. Como referiu o ensaísta Óscar Lopes, é-o pela rejeição do sentimentalismo que marcou o neo-realismo tradicional e pela adesão às técnicas do conto norte-americano. Também pelo que é evidente neste «Lavagante»: a construção da narrativa como uma rede de pequenos traços, testemunhos, detalhes que se problematizam entre si e formam, no final, um quadro reflexo de uma determinada realidade histórica e social.

O narrador fala do médico Daniel Lobo, o «amigo dos anos promissores de 1944-45», e de como numa esplanada de praia este lhe confidenciou a história de amor que viveu com Cecília. Uma história de paixão, perseguição, sacrifício e engano. «Lavagante» teve uma primeira versão, muito reduzida, publicada na revista «O Tempo e o Modo» em 1963. O autor anunciava então que aquela seria a base para um capítulo de um próximo romance. Minucioso, incansável nas emendas, José Cardoso Pires maturou depois o texto, provavelmente até à edição de «O Delfim», em 1968.

O enredo serve uma abordagem à censura, às movimentações estudantis, às perseguições e prisões políticas do início da década de 60. Encontramo-la também em «Dinossauro Excelentíssimo » (de 1972), depois o retrato da ressaca em «E Agora, José?» (de 1977). Como memória, «Lavagante» é «um eco a esfumar as palavras, uma ironia que nos contempla de longe», como «uma mão na noite a acenar, uma mão viciada como um trapo a assinalar ruínas».

Lavagante

José Cardoso Pires

Edições Nelson de Matos

91 págs., 10 euros

© Filipa Melo · Todos os direitos reservados.

Texto fornecido pela autora. A data indicada provém do nome ou pasta do ficheiro original.

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