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SOL · Crítica e ensaio

Livros, boleros e charutos

O PRAZER DA LEITURA

Livros, boleros e charutos

O sinal premonitório surge logo na primeira página de «A Neblina do Passado», de Leonardo Padura, nas bancas pela Asa. O ex-polícia Mário Conde sente mais uma vez «o duplo salto mortal no estômago, o entorpecimento capaz de lhe adormecer as pernas, o suor frio nas palmas das mãos e, sobretudo, a dor quente sob o mamilo esquerdo». Porque acabou de resolver um crime? Não. Conde sente-se assim pela excitação de descobrir uma valiosa biblioteca abandonada numa decrépita mansão de Havana. Há catorze anos que trocou o negócio dos segredos dos mortos, dos oficiais corruptos e dos escroques pelo negócio dos livros usados. Mas isso não quer dizer que páginas soltas dentro de um livro ressuscitando Violeta del Río, uma cantora dos anos 50, não o façam voltar ao activo. E a um velho enigma criminal, às ruas loucas, sonhadoras e traiçoeiras de Havana nos tempos do ditador Fulgêncio Baptista; à época de ouro do «puro teatro» do bolero.

Mário Conde é um herói detectivesco bom bebedor, irónico e solitário, que sonha, em vão, escrever romances escorreitos e comoventes. Foi ele quem trouxe a fama ao jornalista e escritor Leonardo Padura, com a tetralogia «Quatro Estações»: «Passado Perfeito» (1991), «Ventos de Quaresma» (1994), «Máscaras» (1997) e «Paisagem de Outono» (1998). Com quase toda a obra traduzida em Portugal pela Asa, Padura não resistiu mais tarde a fazê-lo renascer em «Adeus, Hemingway» e neste «A Neblina do Passado», Prémio Dashiell Hammett 2006 da Associação Internacional de Escritores de Romances Policiais.

Padura traduziu para a literatura cubana, e latino-americana, a passagem levada a cabo por Dashiell Hammett ou Raymond Chandler dos «locked room mysteries» e das histórias de raciocínio e detectives de Edgar Allan Poe ou Arthur Conan Doyle ou dos «whodunit» de Agatha Christie para o sub-géneros «hard boiled» ou policial social. Mário Conde não é um dos duros. Pelo contrário, muitas vezes expressa raiva, impotência ou frustração e a sua ligação à literatura não deixa de ser lírica. No entanto, a sua visão incisiva da realidade social cubana, ainda que sem ideologia expressa, serve de trama para a construção de hábeis e complexos enredos. A escrita de Padura resulta enxuta, e eficaz, também um pouco comovente tal como a sonhou o detective. Nunca abandonando Cuba e revelando-a de dentro, como poucos o conseguiram.

A Neblina do Passado

Leonardo Padura

Edições Asa

316 págs., 17 euros

© Filipa Melo · Todos os direitos reservados.

Texto fornecido pela autora. A data indicada provém do nome ou pasta do ficheiro original.

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