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SOL · Crítica e ensaio

Mulheres da República

O PRAZER DA LEITURA

Mulheres da República

Como era a mulher portuguesa no início do século XX? Segundo escreveu, em 1916, o jornalista e dramaturgo Eduardo Schwalbach, era a ansiedade o que a dominava: «ansiedade de saber, ansiedade de dirigir a sua vida, ansiedade da inteira libertação, ansiedade de atingir o ideal, que para si própria criou.» Ela, a ansiosa mulher da República, renasce agora numa homenagem singular. O livro chama-se «Operárias e Burguesas – As Mulheres no Tempo da República» e foi escrito por Maria Alice Samara, investigadora do Instituto de História Contemporânea. É um precioso contributo para a história da mulher em Portugal e, em simultâneo, uma surpreendente leitura de descoberta de perfis humanos próximos do romanesco.

Na introdução, a autora esclarece que o traço comum às doze principais histórias biográficas de emancipação da mulher do seu estudo é a luta pela aquisição de «uma voz pública». E acrescenta: «As mulheres a que hoje chamamos pioneiras não foram todas progressistas, nem devem ser julgadas em termos simplistas. Ideologicamente podiam coexistir traços conservadores a par de outros que consideramos modernos. Não são mulheres simples, portanto.» Das mais diversas origens e com distintos percursos de vida, as doze mulheres retratadas são antes personagens de uma época histórica precisa, cuja idiossincracia as condicionou, mas que superaram ao apontarem caminhos até à mulher portuguesa contemporânea.

Por estas páginas não passam questões do foro privado e grande parte do que se relata deriva de fontes mais ou menos indirectas. Ainda assim, é fascinante compreender as motivações de «personagens» como Carolina Beatriz Ângelo, Regina Quintanilha ou Domitila de Carvalho, as primeiras mulheres portuguesas, respectivamente, a votar, a exercer a advocacia e a entrar na Universidade de Coimbra. Novos contornos assumem também as biografias de figuras mais conhecidas como a médica feminista Adelaide Cadete ou a escritora Maria Amália Vaz de Carvalho. E com surpresa descobrimos os extraordinários casos de Maria-Rapaz, a rapariga pobre e desamparada que «se fez homem para sobreviver», ou da actriz de revista Maria Alves, tragicamente assassinada pelo amante. Afinal, a tutelar todo o livro, está o aliciante repto um dia lançado por Ana de Castro Osório: «Conhece-te a ti mesma.»

Operárias e Burguesas

Maria Alice Samara

Esfera dos Livros

233 págs., 24.50 euros

© Filipa Melo · Todos os direitos reservados.

Texto fornecido pela autora. A data indicada provém do nome ou pasta do ficheiro original.

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