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SOL · Crítica e ensaio

Lembrar a Lua

O PRAZER DA LEITURA

Lembrar a Lua

A 20 de Julho de 1969, Neil Armstrong desce a escada do módulo Eagle e pisa o solo do Mar da Tranquilidade. O Homem acaba de conquistar a Lua. Enquanto isso, na Terra, precisamente no bairro de San Lorenzo, na pequena localidade andaluza de Mágina, um rapaz de treze anos e meio vê chegarem ao fim quatro dias de intensa expectativa e impaciência, alimentados durante anos pelo sonho e pela fantasia. A revisão do quotidiano da vida do rapaz nesses dias é o fio condutor de «O Vento da Lua», romance do espanhol Antonio Muñoz Molina, datado de 2006 e agora traduzido por Miguel Serras Pereira para a Casa das Letras.

«O Vento da Lua» aproxima-se de um romance de formação, um «bildungsroman» (termo alemão para este género literário iniciado no século XIX com «Os Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister», de Goethe), no qual se acompanha o processo de crescimento de uma personagem. Na Espanha franquista do final dos anos 60, um rapaz, filho de hortelão, aluno do colégio salesiano, devorador de Salgari, Twain, Wells e Verne, sonha com a Lua. Ao entrar na adolescência, despede-se do idílio infantil, a consciência enche-se de «culpas e desejos». Através de uma narração retrospectiva e prospectiva centrada nesta personagem, descreve-se a adolescência particular e a memória colectiva como uma espécie de territórios «lunares», cheios de buracos, estranhezas e efabulações. O passado volta ao centro da ficção do premiado Muñoz Molina, autor, entre outros, dos romances «Beltenegros», «Plenilúnio», «Os Mistérios de Madrid» ou «O Inverno em Lisboa», membro da Real Academia Espanhola desde 1996.

Com grande poder sugestivo e detalhe, Molina estabelece paralelismos entre os acontecimentos na vida do rapaz e as várias etapas da missão lunar. As primeiras masturbações, a chegada da televisão à casa do vizinho da frente, a apanha da azeitona, um suicídio, um segredo escondido pelos habitantes de Mágina; são marcas que, tal como acontece na Lua, nenhum vento consegue apagar. No final, adulto, o rapaz observa a casa abandonada da sua infância, o pai já velho, o pó a cobrir os jornais e revistas através dos quais acompanhou a Apolo IX. Diz: «As minhas impressões digitais estarão impressas na poeira que tudo foi cobrindo. A poeira branca e cinzenta da Lua, parda, ou até mesmo rosada, conforme o ângulo do Sol.»

O Vento da Lua

Antonio Muñoz Molina

Casa das Letras

266 págs., 17 euros

© Filipa Melo · Todos os direitos reservados.

Texto fornecido pela autora. A data indicada provém do nome ou pasta do ficheiro original.

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