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SOL · Crítica e ensaio

Desejo e Domínio

O PRAZER DA LEITURA

Desejo e Domínio

Naomi tinha 15 anos e era uma pobre e triste recepcionista no Café Diamante quando Joki Kawai decidiu que ela passaria a viver com ele. As influências dos loucos anos 20 ocidentais arrasavam Tóquio com um impacto comparável ao do grande terramoto de 1923. Um Japão cada vez mais cosmopolita abria-se a novas doutrinas, modas e filosofias. Aos 28 anos, o sr. Kawai queria ser moderno e Naomi, com um nome de entoação ocidental e um rosto semelhante ao de Mary Pickford, podia bem servir o seu sonho de ter uma esposa chique e ocidentalizada. Bastava que ele a moldasse, tratando-a «como de um passarinho».

Em 1924, quando foi primeiro publicado, «Naomi» escandalizou a sociedade japonesa. Era o primeiro romance importante do escritor Junichiro Tanizaki (1886-1965) e, repleto de erotismo e de refinado decadentismo, seria também a primeira das suas obras a ser objecto da censura. Nele, o autor reflectia a sua própria biografia de boémio e as suas obsessões com o choque entre a cultura tradicional japonesa e a liberalizadora cultura ocidental. «Naomi» tornou-se um símbolo e o termo «naomismo» passou a designar a afirmação da mulher japonesa moderna. Só 30 anos depois, Vladimir Nabokov criaria «Lolita».

Embora desdobrável em vários subtemas, um tema central percorre este romance, e toda a obra de Tanizaki: a dominação resultante da ambiguidade do desejo. Naomi presta-se a «brincar às casinhas» com Joki e a tornar verdadeiro o seu sonho. Contudo, rapidamente o subjugará com uma perversa «electricidade animal». O combate entre tradição e ruptura dá-se com violência na esfera da intimidade. Num país onde «esconder a carne» pode ser «a expressão do desejo intuitivo de autopreservação», Tanizaki rompe os limites, conjugando o sexo com romantismo e masoquismo.

Com importância comparável à de Yukio Mishima ou de Yasunari Kawabata, a obra de Tanizaki é uma excelente porta de entrada na literatura japonesa do século XX. Em Portugal, tem sido traduzida do francês ou do inglês, caso do ensaio «Elogio da Sombra» (Relógio d’Água, 1999) ou do romance «A Chave» (Teorema, 2003; em 1990, publicado pela Assírio com o título «A Confissão Impúdica”). E, embora se saúde a edição de «Naomi», estranha-se o atraso na edição da obra-maior, «As Irmãs Makioka» (dos anos 40) , já editada no Brasil.

Naomi

Junichiro Tanizaki

Relógio D’Água

217 págs., 14 euros

© Filipa Melo · Todos os direitos reservados.

Texto fornecido pela autora. A data indicada provém do nome ou pasta do ficheiro original.

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