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SOL · Crítica e ensaio

Sangue, sem Cristo

O PRAZER DA LEITURA

Sangue, sem Cristo

Há livros que assombram o leitor. Repletos de insólitos simbolismos e de imagens que são como serpentes venenosas. Há livros eficientes a perturbar-nos e a atrair-nos dramaticamente com a sua face tão grotesca quanto bela. Os livros da norte-americana Flannery O’Connor são assim. Sai agora em Portugal a tradução de Sangue Sábio, o seu primeiro romance, publicado em 1952 e mais tarde adaptado ao cinema por John Huston.

O’Connor, católica até à medula, cresceu e viveu no Sul racista, evangélico e fundamentalista dos Estados Unidos. Escreveu dois romances e 31 contos e morreu em 1964, com 39 anos, vítima de lúpus. A sua obra possui uma iluminação estranha, como as de William Blake, Hildegarda de Bingen ou ETA Hoffmann, um extraordinário fulgor estilístico e um misterioso realismo psicológico, como a de William Faulkner. Daí que, na história da literatura universal, ela continue ainda hoje ser arrumada na prateleira dos autores fascinantes, mas incómodos.

Sobre Sangue Sábio, cuja escrita iniciou aos 22 anos e lhe tomou outros cinco, O’Connor deixou definido, no prefácio: “É um romance cómico sobre um cristão malgré lui e, como tal, é muito sério, porque todos os romances cómicos que valem alguma coisa são sobre assuntos de vida e morte.” Uma ficção alegórica que condensa uma particularíssima visão religiosa sobre o livre-arbítrio, o pecado e a condição humana. Onde a graça, mais do que a culpa ou a redenção, é uma navalha que dilacera o homem, salvando-o.

Hazel Mote, o protagonista, esteve quatro anos na guerra e está de regresso ao seu universo de origem, sulista e rural. Não encontra nele qualquer âncora familiar ou afectiva (“o mundo é um sítio vazio”). Sem morada e sem culpa, com fato e chapéu de pregador, funda a Igreja sem Cristo e prega uma niilista repulsa de Jesus, o fim de qualquer necessidade de redenção. À sua volta movem-se personagens bizarras, com as quais ele, incapacitado de compaixão, caminhará até à libertação final.

O’Connor choca e surpreende através de personagens que são cruéis caricaturas, retratos assentes em pormenores que nos atraem devido à estranheza da sua diferença. Sangue Sábio é um romance negríssimo, com fantásticos poder simbólico e imagético. Uma ficção habitada por “uma sabedoria terrível como um nervo imenso crescendo dentro de si”.

Sangue Sábio

Flannery O’Connor

Cavalo de Ferro

184 págs., 15 euros

© Filipa Melo · Todos os direitos reservados.

Texto fornecido pela autora. A data indicada provém do nome ou pasta do ficheiro original.

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