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SOL · Crítica e ensaio

O regresso de Máiquel

O PRAZER DA LEITURA

O regresso de Máiquel

“Você é um fenómeno rapaz... Em que buraco você se meteu? Brasil, falei. Um buraco enorme.” Doze anos após ter nascido do romance «O Matador», Máiquel regressa. Patrícia Melo deve-lhe uma carreira que conquistou as principais rotas editoriais europeias e a crítica de referência. Deve-lhe também a idealizada aproximação ao universo de mestre Rubem Fonseca, que com o seu filho, o realizador José Henrique Fonseca, transportou Máiquel para o cinema em «O Homem do Ano», de 2002. Mas a melhor personagem criada pela escritora brasileira afasta-se agora da força surpreendente e radical que a filiara em narrativas rubenianas como «O Cobrador» ou «Feliz Ano Novo» (da década de 70). Neste «Mundo Perdido», acabado de chegar às livrarias portuguesas, Máiquel está à beira do estertor.

Diz, pobremente: “Eu sou a grade, o cachoro, o muro, o caco de vidro afiado. Eu sou o matador. Bang, bang, bang.” É frouxa a voz deste ex-assassino profissional, mas que ainda mata e é mau e duro, foragido e vingador. Ao longo de 196 páginas, tornar-se-á cada vez mais recorrente e cansativa. Após dez anos escondido, Maiquél regressa a São Paulo e dali segue para Campo Grande, por fim para Manaus. O que o move já não é o dinheiro nem a indiferente raiva de matar de outros tempos. Ele quer encontrar a ex-mulher, Érica, e o companheiro, o pastor Marlênio, e resgatar a filha de onze anos, Samanta. De algum modo, como o triste e moribundo cachorro que baptiza de Tigre e toma a seu cargo, o ex-matador quer salvar-se. Mas o mundo está perdido mesmo…

Após ter produzido um óptimo «Inferno», epopeia do submundo carioca liderada pelo menino traficante Reizinho, Patrícia perde a mão num sexto romance que é uma lamuriosa, e de repente moralista, aproximação a um retrato interior da violência brasileira. Procura vencer-nos pela cadência repetitiva das imagens realistas que se engavalitam umas nas outras, pela frase curta e apertada, pela linguagem coloquial desleixada e impudente, mas a junção disso e de asfalto e sexo e sangue e desesperança já não basta à melhor nova literatura brasileira de temática urbana (representadas por Luiz Ruffato ou Joca Reiners Terron). Ainda assim, Máiquel e «Matador» ficarão como marcos de uma viragem que explodiu nos anos 90 como vitrine das mais cruas realidades brasileiras.

Mundo Perdido

Patrícia Melo

Campo das Letras

196 págs., 13.65 euros

© Filipa Melo · Todos os direitos reservados.

Texto fornecido pela autora. A data indicada provém do nome ou pasta do ficheiro original.

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