Nós, Peter Pan
Nós, Peter Pan
Guardamos as verdadeiras memórias de uma situação, de um rosto, de um sabor, de uma frase. Por quanto tempo? O que ainda lembramos mistura-se lentamente com aquilo que supomos lembrar, e as memórias transformam-se em ficção. «Até aos seis anos de vida, tudo é pura suposição», escreveu J. M. (James Mathew) Barrie, o autor escocês da peça «Peter Pan» (1904) e do romance «Peter Pan e Wendy» (1911). Escreveu mesmo, ou inventou-o Peter Hook, protagonista e narrador do romance «Jardins de Kensington»? O que guardamos da infância, fonte máxima das efabulações que construímos sobre nós mesmos, é o centro deste romance do argentino Rodrigo Fresán, recém-editado pela Cavalo de Ferro. Um longo monólogo sobre uma criança infeliz e orfã e a sua sobrevivência enquanto adulto. Da Londres psicadélica dos anos 60 até à actualidade, e sob a sombra também ácida e poderosa de um «falso ídolo», Peter Pan.
Peter Hook, aclamado autor de romances infantis, vive obecado com J. M. Barrie, a sua melancólica e singular biografia vitoriana, os seus livros e a sua relação com os seis meninos Lelwelyn Davies, que inspiraram «Peter Pan». Numa só noite, em espirais de narração, delírio e confissão, Hook fala de si e da sua história de vida. O ouvinte é Keiko Kai, o actor que se prepara para interpretar no ecrã Jim Yang, a principal personagem dos livros infantis de Hook.
Ainda que muitas vezes confusa e contaminada por um esforço enorme de Fresán em mostrar erudição, a inconclusiva narrativa de «Jardins de Kensington» é uma original remontagem de significados para a ficção de Peter Pan. Apesar de não ser reconhecido em nenhuma listagem moderna de ditúrbios mentais, o popular síndroma de Peter Pan assenta como uma luva em indivíduos que seguem a máxima: «Não crescerás.» Tal como Peter, «um viciado nas anfetaminas da eterna infância», Jim Yang não cresce, mas porque está contaminado com a ideia de que «o eterno problema é, sempre, o presente». Tal como J. M. Barrie, Hook perdeu os pais cedo e sofreu a tragédia da morte de um irmão. Todavia, ele garante que nunca gostou de crianças, e assegura: «Eu não sou um herói. Eu nunca me senti um herói.» Em «Jardins de Kensington», Fresán consegue a proeza de fundir personagens fictícias e históricas, numa homenagem às «testemunhas sobreviventes» do poder trágico da infância.
Jardins de Kensington
Rodrigo Fresán
Cavalo de Ferro
456 págs., 19,50€