Ficção, internacional, premiada
Ficção, internacional, premiada
Nobel da Literatura – Orhan Pamuk
Reforçando o pendor também político da escolha, o Comité Nobel destacou em Pamuk a sua descoberta de “novos símbolos para o confronto e o cruzamento de culturas". Defensor da causa arménia e curda, o escritor chegou a ser acusado pela justiça turca por "insulto aberto à nação”. A partir das tensões entre o Oriente e o Ocidente na sociedade turca, a sua obra retrata o terrível sentimento de humilhação daqueles que vivem fora do circuito nobre do mundo globalizado.
National Book Award (EUA) - The Echo Maker, Richard Powers (Farrar, Straus & Giroux)
Há décadas elogiado pelos críticos, mas rejeitado pelo público como autor “difícil”, Powers explora, em The Echo Maker, o estranho processo de desajuste entre as identificações visuais, intelectuais e emocionais de um homem vítima de síndroma de Capgras. A pergunta crucial é: Como sabemos quem realmente somos?
Pulitzer Prize for Fiction (EUA) - March, Geraldine Brooks (Viking)
Seguindo a tendência actual de reinvenção de enredos clássicos, a australiana Geraldine Brooks pegou em Mulherzinhas (1868) e recentrou-o na figura do patriarca da família, o capelão unionista March, cruzando nele a biografia do pai de Louisa May Alcott. O resultado é um inconveniente e detalhado retrato masculino da Guerra Civil Americana.
Man Booker Prize (GB) – The Inheritance of Loss, Kiran Desai (Hamish Hamilton)
Apesar de a acção se situar nos anos 80, o romance da indiana Kiran Desai (filha da romancista Anita Desai) foi considerado uma das mais actuais reflexões sobre a mundialização e a identidade cultural. Numa casa isolada nos Himalaias, entram em choque o mundo de um velho juiz educado em Cambridge, da neta adolescente e do seu tutor nepalês, e do filho do cozinheiro, ex-imigrante ilegal em Nova Iorque.
Orange Prize for Fiction - On Beauty, Zadie Smith (Hamish Hamilton)
Homenagem explícita ao clássico Howards End (1910) de E. M. Forster, On Beauty toma dele o tema principal: as difíceis relações entre membros de classes sociais diferentes. Zadie Smith desloca a acção para o Wellington College, na costa leste americana, e, em torno de duas famílias, introduz novos elementos de tensão como as questões de raça e de nacionalidade.
Orange Award for New Writers – Disobedience, Naomi Alderman (Viking)
Cada vez mais tido como o farol da nova ficção em língua inglesa, o Orange distinguiu a estreia desta universitária de Oxford, criada na comunidade judia ortodoxa de Hendon, no norte de Londres. É nesse cenário suburbano que Alderman, seguindo a linha de Monica Ali ou Zadie Smith, revela, não sem ironia, uma comunidade (auto)marginalizada.
Prix Goncourt e Grand Prix du Roman de l'Académie Française - Les Bienveillantes, Jonathan Littell (Gallimard)
Filho de um escritor (Robert Littel), descendente de uma família judia emigrada da Polónia para os Estados Unidos no final do século XIX, Jonathan Littel nasceu em Nova Iorque, passou a infância em França e concluiu os estudos universitários em Yale. Em acções humanitárias, esteve nos Balcãs, no Congo e no Afeganistão. Hoje, vive em Barcelona e é casado com uma belga. Confusos? Littel, cujo primeiro romance, de 900 páginas e escrito em francês, arrasou os dois maiores prémios, a crítica e as tabelas de vendas francesas, parece ser o fruto consumado da tão falada “mundialização” e de uma tendência, para alguns demasiado complacente, de revisão/compreensão da História. Les Bienveillantes é uma vasta aproximação a um retrato da frente russa da Segunda Guerra Mundial através das memórias ficcionadas de um oficial nazi chamado Maximilien Aue.
Prix Femina – Lignes de Faille, Nancy Huston (Actes Sud)
Para muitos, é em Lignes de Faille (escrito originalmente em inglês), mais do que em Les Bienveillantes, que os traumas da Segunda Guerra encontraram nova voz. Não apenas uma, mas quatro vozes de crianças roubadas pela Wehrmacht nos territórios ocupados. Numa astuciosa arquitectura ficcional, a franco-canadiana Nancy Houston segue os ecos destas vozes ao longo de meio século de história europeia. A divulgação do Femina deste ano foi prejudicada pelos escândalos decorrentes da simultânea publicação de Journal d'hier et d'aujourd'hui (Fayard), de Madeleine Chapsal, onde a escritora critica as deliberações do júri do prémio, a que pertencia.
Nordic Council Literary Prize - The Ocean, Göran Sonnevi (Bonniers)
Instituído pelos governos dos países nórdicos em 1961, este prémio é uma das raras pontes para a divulgação dos autores de poesia e prosa daqueles países na generalidade dos circuitos literários europeus. Do sueco Goeran Sonnevi, diz o júri que escreve poesia “em constante diálogo com a realidade social e política, reflectindo igualmente questões individuais como a culpa e a responsabilidade”.
Prémio Jabuti e Prémio Portugal Telecom – Cinzas do Norte, Milton Hatoum (Cotovia)
Autor de culto, Milton Hatoum surpreendeu os meios literários brasileiros com o seu terceiro romance em 16 anos de vida literária. Cinzas do Norte, cuja acção se situa na Manaus natal do escritor, é relatado, do lado de fora, por Lavos, protagonista a par do seu amigo Mundo. A partir dos mundos opostos das famílias dos dois amigos, com a ditadura militar por cenário de fundo, Hatoum escreve sobre “a obediência estúpida ou a revolta”, a liberdade e a clausura; uma “história moral da [sua] geração”.
Premio Planeta de Novela – La Fortuna de Matilda Turpin, Álvaro Pombo (Planeta)
Em Espanha, os prémios oficiais de carreira Nacional de Letras Españolas e Miguel de Cervantes distinguiram, respectivamente, o ficcionista madrileno Raúl Guerra Garrido e o poeta Antonio Gamoneda. Por seu turno, aos 67 anos e pelo seu décimo terceiro romance, Álvaro Pombo arrebatou o Planeta, o galardão mais importante concedido por uma editora. La Fortuna de Matilda Turpin narra a história de Matilda, uma mulher acomodada que, após trinta anos de casamento, se decide por uma espectacular carreira na alta finança.