Nos antípodas
Nos antípodas
Na última década, multiplicaram-se os prémios que distinguem obras e criadores em todas as áreas da cultura, no estrangeiro e em Portugal. A febre inundou também as livrarias. Faixas e inscrições destacam hoje vencedores, finalistas ou meros candidatos a prémios, alguns atribuídos em datas bem distantes ou até mesmo não atribuídos à obra em causa, mas sim a outra do mesmo autor. Perante a concorrência entre editores num mercado saturado e a diminuição dos espaços de divulgação e crítica, os livros são mediatizados pela voz pública dos prémios. Por isso mesmo, nunca será de mais lembrar que os leitores passaram a aderir, muitas vezes acriticamente, à linha de gosto dominante numa elite intelectual, em determinados ano e conjuntura estética. E que Jorge Luis Borges nunca ganhou o Nobel e Pessoa conquistou um mero segundo lugar com a sua «Mensagem».
Vem isto a propósito de «O Rio Secreto», da australiana Kate Grenville, acabado de chegar às livrarias, depois de ter sido finalista do prestigiado ManBooker e vencedor do Commonwealth Writers em 2006. Neste caso as distinções são justas, mas não deixam de corresponder a critérios específicos do actual espaço literário europeu.
«O Rio Secreto» é uma reflexão sobre a essência do colonialismo: o estranhamento e o domínio de si mesmo e do outro. O protagonista, William Thornhill, personifica os «antigo[s] colonialista[s]», homens que puderam «moldar o mundo como muito bem lhes [apeteceu]». Da terrível infância em Londres, nos finais do século XVIII, até ao crime de furto de madeira e à consequente deportação perpétua para a Austrália. Dos primeiros contactos com os aborígenes até ao seu progressivo massacre ou confinamento em reservas. Thornhill será o homem que nasce miserável, é condenado e «cuspido» pela sociedade de origem, mas se torna rei de quarenta hectares e meio de uma terra que inventou como se fosse sua de raiz. No final, apenas resiste «uma paisagem tão complicada e agreste que derrotava qualquer homem branco».
O estilo seguro e cativante de Grenville permite que se siga o enredo sem grande preocupação com o subtexto. Mas ele está lá e fala de como a Europa tem acolhido uma literatura que faz a purga das culpas colonialistas, e, em simultâneo, combate e incentiva o novo turismo de procura do exótico protagonizado pelos europeus.
O Rio Secreto
Kate Grenville
Quetzal Editores
379 págs., 19.95 euros