Genji, o Resplandecente
Genji, o Resplandecente
«Genji Monogatari» data do século XI d. C., é tida como a primeira «narrativa psicológica» na história da literatura universal e um verdadeiro desafio para leitores e tradutores contemporâneos. Foi escrita por uma das damas de honor da corte imperial, cognominadas Murasaki Shikibu, durante o último, mais aúreo e pacífico período da divisão clássica da história japonesa: a era Heian (794 -1185). Tem uma extensão correspondente a duas mil páginas, e, na versão portuguesa agora proposta pela Relógio D’Água, será dividida em duas partes («Esplendor» e «Impermanência»). Relata a vida de Genji, filho de uma paixão ardente do Imperador, mas a quem é negado o estatuto de Príncipe de Sangue e uma eventual ascensão ao trono.
Genji (termo que indica a pertença ao clã Minamoto, vítima das intrigas do poderoso clã Fujiwara) possui desde criança uma beleza e uma inteligência «esplendorosas». O romance (também considerado lenda, novela ou, simplesmente, história) segue o apogeu e queda políticas de Genji, concentrando-se na sua intensa vida amorosa, por fim no destino dos seus descendentes de terceira e quarta gerações. Com complexas estrutura e rede de personagens centrais, é um quadro vasto dos costumes da aristocracia da época, marcados por uma ímpar conjugação de requinte material e intelectual.
Poderá parecer um susto, assim apresentada, a leitura de «Genji Monogatari». Mas inseparável da riqueza da leitura ocidental em prosa, e do prazer que proporciona, está o intrincado enredo paralelo sobre as vicissitudes da história material e das múltiplas interpretações dos textos originais. Milhares de comentários e análises, analogias, derivações, evocações e reinterpretações de reinterpretações foram suscitadas por esta que é considerada a obra-prima da literatura japonesa.
A fonte de «Genji Monogatari» são 54 Livros, de dimensão variável e de que não resta nenhum manuscrito original, nos quais foram inscritos 80 ilustrações e 795 «waka» (composições de 31 sílabas que condensam as reflexões críticas e mais íntimas do autor). Transmitidos em versões e lidos durante séculos como unidades autónomas, os diversos textos apenas a partir do século XVIII passaram a ser abordados como um todo e só após 1945 foram objecto de edições críticas fiáveis. No prefácio ao primeiro tomo da edição portuguesa, o tradutor Carlos Correia Monteiro de Oliveira (que se baseou no confronto entre três traduções a partir do japonês moderno: inglesa, francesa e espanhola) explica por que optou pelo título «O Romance do Genji». E justifica o fascínio de autores ocidentais como Yourcenar, Yeats ou Borges e de críticos como Harold Bloom por esta obra monumental, apontando-a como «uma aventura mental espantosamente moderna».
O Romance do Genji
Murasaki Shikibu
370 págs., 19 euros