Carnaval, às arrecuas
Carnaval, às arrecuas
Aos 75 anos, Umberto Eco está em forma e recomenda-se. O mais recente volume de ensaios chama-se A Passo de Caranguejo, reúne textos e artigos escritos entre 2000 e 2005 e chegou agora às livrarias portuguesas. Mas, prepare-se: o romancista, filósofo e linguista italiano não traz boas notícias e até mesmo a ironia a que recorre é tão ácida que corroerá qualquer sorriso. Tal como em alguns dos seus ensaios da década de oitenta (em Viagem na Irrealidade Quotidiana ou em Sobre os Espelhos, ambos publicados pela Difel), Eco escuda as suas reflexões sobre a realidade com uma certa antipatia positiva. Desta vez, acrescenta-lhe um paternalismo que se quer afirmar como clarividente.
A tese central fica esclarecida logo no arranque. Para Umberto Eco, vivemos uma época sombria porque o mundo “vai avançando a golpes de sabre” e às arrecuas. Será possível que estivéssemos melhor quando estávamos pior?, pergunta o ensaísta. Como encarar o regresso do terrorismo, do anti-semitismo e do racismo, do choque radical entre o Ocidente e “os Outros”, o ressurgimento das disputas entre a Igreja e o Estado ou a existência de governos orientados por princípios post-fascistas? A única explicação para este desolador estado do mundo, defende, está no passado. Assumindo-se sarcasticamente como alguém que possui o dom da “pósmonição”, Eco esmiuça o presente enquanto movimento histórico regressivo, ou seja, como uma “involução”.
Usem-se pois as “armas da análise e da crítica” para fazer frente ao desvario da contemporaneidade. O ensaísta acrescenta-lhes a sua famosa erudição e zurze com elas sobre a cultura dominante, “mística, tradicionalista, neo-espiritualista, new age e revisionista”. Muitas coisas o irritam e ele não hesita em tomar posição: do populismo mediático preconizado pelo governo de Silvio Berlusconi à suposta “alma dos embriões”, ao new age como “sincretismo em estado puro” ou à ditadura dos gadgets ou do politicamente correcto, passando, imagine-se, pelo discurso da irmã Lúcia sobre o terceiro segredo de Fátima!
Fica claro que, para Umberto Eco, “uma das características da civilização em que vivemos é a carnavalização total da vida”. Vivemos imersos nela, como “criaturas lúdicas por definição” ou… catastrofistas por lucidez e desesperança.
A Passo de Caranguejo
Umberto Eco
Difel
390 págs., 19 euros